Aguentar sem crer (2026)

Aguentar sem crer (2026)

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Aguentar sem crer

Publicado na internet, janeiro de 2026.

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A propósito de um lugar que não rende nada, este endereçamento para responder a uma questão flutuante: qual situação para o sujeito analisado passado a analista? Não se trata aqui de teorizar, nem de comentar com a exatidão dogmática admitida, mas de evocar o que não é abordado tão frequentemente assim fora dos círculos de iniciados do meio psicanalítico. Textos, históricos, abordam esta dimensão da experiência, aquela da passagem a analista; ela é falada em discussões entre colegas, mas parece pouco acessível aos mais jovens colegas (em idade ou em experiência) quando se trata de abordar o estado do ser do analista (ser que não é, convidado ao desser). Talvez ela esteja inscrita alto demais nos frontispícios das casas de psicanálise para ser lida e debatida? Intransmissível, ela se perpetua contudo, passa por aqui ou por ali, é experimentada na sombra antes de se esclarecer ao longo do caminho. Desejável, ela pode nutrir uma carta de votos para este novo ano de 2026.

Caro/Cara colega,

Escrevo-te desde um lugar que não é um cume, nem uma realização. Escrevo-te desde o depois, o depois da destituição subjetiva (que concerne ao analisante) da análise levada suficientemente longe, e sobretudo desde o desser (que concerne ao analista) da análise conduzida a seu termo.

Chamamos isto, nos textos, o desser (significante lacaniano) daquele ou daquela que funciona como analista. A palavra é seca, mas eficaz. Seca demais, contudo, para o que ela recobre. Pois o desser não é somente uma operação lógica (a passe). É uma experiência (os efeitos da passe). Uma experiência que deixa às vezes uma tonalidade melancólica. Não uma tristeza barulhenta. Não uma queixa. Não um cabo a atravessar. Antes uma desafecção silenciosa pelo que, outrora, fazia aguentar. O desser é uma queda: a queda do analista em posição de objeto a – o caído por excelência, mas também o irredutível a desejos.

Depois/com a análise, você sabe doravante que as narrativas são montagens. Que os ideais se sustentam por ficção. Que mesmo o desejo não tem destinação final. E este saber, ninguém te felicitará realmente. Ele não é muito transmissível. Ele não faz carreira. Ele é o saber do analista que só o analista compartilha consigo mesmo: saber cair, saber aguentar, saber escrever, saber saber, saber sexuar, saber existir. Destes saberes, digo que é uma zona de autonomia temporária a defender.

Te haviam talvez deixado entender — ou você talvez tenha esperado você mesmo/a — que a análise, uma vez atravessada, abriria sobre uma forma de solidez. Que depois, você estaria mais tranquilo/a. Mais seguro/a. Mais claro/a. Mais… Tantos farrapos dos fantasmas e crenças na Psicanálise, no Analista, etc.

Não é falso, mas é preciso dizê-lo de outra maneira completando, sem dramatizar, sem heroísmo: algo não volta depois da análise. Não é grave. Mas é irreversível. O que não volta, não é o desejo. Não é a capacidade de trabalhar, nem mesmo de amar. É a crença — esta crença discreta mas tenaz — no sentido que protege, no saber que sustenta, no Outro que responde, etc. Depois da análise, você continua a viver, mas sem estas muletas, sem estas próteses. Tudo mudou: o corpo, a voz, o olhar, a pulsão, o fantasma, o outro, o Outro, a sexualidade, etc.

Então, talvez você experimentará então uma forma de luto estranho. Um luto sem morte. Sem objeto preciso. Um luto que não se faz completamente. Você não saberá sempre dizer o que foi perdido. Somente que algo cessou de operar. Este luto aí não se trabalha como os outros. Ele não se elabora completamente. Ele resta, às vezes, como uma melancolia sem nome. Não se apresse em fazê-la calar. Ela não é forçosamente um sintoma. Ela é frequentemente o sinal de que você não mentiu sobre o que atravessou.

Contudo, é aí que muitos se cansam. Ou se endurecem. Ou se refugiam nos dogmas, nos grupos, nas certezas. Três becos sem saída ao menos:

  • Acontece de a transformarem em certezas, em saberes seguros, em discursos de experts, esta queda, esta melancolia. Prometem saídas, tranquilizam, explicam. O consultório torna-se um lugar de gestão das subjetividades a serviço do ultraliberalismo ambiente, e se coloca em risco face às ameaças fascistas.
  • Às vezes, a perda do Outro é substituída por si mesmo como Outro, o desser, a queda são preenchidos pela autoridade, a solidão radical compensada pela adesão, os sujeitos recebidos tornam-se discípulos, o mestre goza deles.
  • Outras vezes ainda, existe uma saída mais sorrateira: fazer-se gozador do sintoma do outro. Escutar para saber, saber para dominar, dominar para se sentir existir. A desgraça torna-se matéria, a palavra um recurso, o sofrimento um capital. Administra-se, a queda é disfarçada.

Gostaria de te dizer isto, simplesmente: se um dia você se sentir atravessado/a por uma melancolia sem queixa, se você continua a trabalhar sem crer realmente, se você escreve talvez, ou transmite, não para convencer mas para aguentar, então não conclua rápido demais a uma falha. Poderia ser que você esteja simplesmente no lugar certo, na distância certa. Esta melancolia-queda-desser-perda não impede de exercer. Ela não é um sintoma, mas o sinal da modificação estrutural radical que a análise conduzida a seu termo realiza. Ela impede de contar histórias a si mesmo. Ela não mata o desejo. Ela o livra de suas promessas. Ela torna livre de não mais crer, para se apoiar na experiência do real do inconsciente e não somente de seus tormentos linguageiros.

Aguentar a posição analítica, não é crer ainda. Não é esperar melhor. Não é salvar. É aguentar, sem garantia. Aguentar sem crer. E continuar, apesar de tudo.

VB.

Referências:

Piera Aulagnier, A violência da interpretação. Do pictograma ao enunciado, Paris, PUF.

Sigmund Freud, Análise terminável e interminável, Paris, PUF.

Jacques Lacan, O Seminário, livro XVII: O avesso da psicanálise, Paris, Seuil.

Jean Allouch, Erótica do luto, Paris, EPEL.

Donald Winnicott, O ódio na contratransferência, in Da pediatria à psicanálise, Paris, Payot.

Sándor Ferenczi, Diário clínico, Paris, Payot.