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Atualidade do «rochedo» freudiano: o «primeiro homem grávido»
Vincent Bourseul, Laurie Laufer
Ágora, 2016, p. 9-20.
FRANCÊS
A partir da recepção, pelo público e pela mídia, da aventura de Thomas Beatie, o «primeiro homem grávido1», somos convidados a revisitar alguns questionamentos freudianos sobre o «fator2» da diferença sexual e as dificuldades encontradas pela análise no ponto de impasse do «rochedo» identificado por Freud. Detectamos na maneira como o caso de Thomas Beatie é acolhido um possível eco com a «recusa do feminino», em particular na fabricação da expressão «homem grávido», grafada sem «a». Conjuntamente, o «rochedo» se revela em sua função de dobradiça entre a reatualização dos conflitos psíquicos passados e seus tratamentos, e a abertura ética promovida por Freud de um posicionamento do sujeito diante dessa experiência da diferença sexual, tornada acessível pela análise no próprio lugar desse impasse em forma de abertura.
PORTUGUÊS
Da recepção, pelo público e pela mídia, da aventura de Thomas Beatie, o “primeiro homem grávido”, somos instados a revisitar alguns questionamentos freudianos sobre o “fator” da diferença sexual e as dificuldades encontradas pela análise no ponto de tropeço do “rochedo” identificado por Freud. A originalidade da situação de Thomas Beatie impulsiona o questionamento sobre as possibilidades de arranjos psíquicos da diferença sexual e o modo como o processo analítico vem testá-los como resistências. Revelamos na maneira como o caso de Thomas Beatie é acolhido um possível eco com a “recusa do feminino”, em particular na fabricação da expressão “homem grávido”, grafada sem “a”. Conjuntamente, o “rochedo” se mostra em sua função de dobradiça entre a atualização dos conflitos psíquicos passados e seus tratamentos, e a abertura ética promovida por Freud de um posicionamento do sujeito diante dessa experiência da diferença sexual, tornada acessível pela análise no lugar desse impasse em forma de abertura. O “primeiro homem grávido” mostra as potencialidades do “rochedo” freudiano que podemos, com ele, ainda reler como limite da análise e também como fulcro da análise.
O «homem grávido» de ontem e de hoje
Em 2008, o jornal americano The Advocate1, como inúmeras mídias ao redor do mundo, nos informava em sua edição de 14 de março sobre o nascimento próximo de uma criança cuja mãe era um homem. O «primeiro homem grávido», disse-se a respeito de Thomas Beatie, esse transexual americano então com 34 anos. Contudo, ele não era o primeiro homem a ter dado à luz, a ter gerado ou parido como homem; outros se encontraram nessa situação antes dele. Outros homens transexuais que dão corpo ao que até então existia apenas como mito. O mito mais célebre dentre eles é, sem dúvida, o de Adão, de quem Deus começa por retirar uma costela para transformá-la em Eva; é assim, em todo caso, até o século XVI, quando se fará Eva sair do corpo de Adão sem passar pela extração de uma costela. Mas Adão não é o único nesse caso. Roberto Zapperi, escritor e historiador que dedicou em 1979 um estudo muito interessante sobre essa questão, assinala a presença do mito de O homem grávido (Zapperi, 1979) na tradição cristã, nas Mil e uma noites e na Antiguidade, detendo-se também nos dois casamentos do Imperador Nero, que teria sido engravidado por um de seus amantes. Sua análise é especialmente instrutiva quando ele evidencia o caráter político dessas variações em torno do «homem grávido», que, de seu ponto de vista, se dividem em duas grandes categorias de oposição: a primeira sendo a da superioridade do homem sobre a mulher; a segunda correspondendo à autoridade do senhor ou do homem da igreja sobre seu camponês ou seu fiel. Uma das coisas a dominar aparece sob a oposição entre horizontalidade e verticalidade. De fato, na maioria dessas lendas, a ameaça de uma gravidez do homem teria tido por objetivo fazer respeitar a necessária superioridade do homem sobre a mulher por ocasião do coito, notadamente.
Essa verticalidade ressoa, aliás, com o que Thomas Laqueur nos ensina em Inventando o sexo (Laqueur, 1992) a respeito dessa época não tão distante, em que de sexo havia apenas um, um sexo que não se designava como macho, pois era o único e não tinha necessidade dessa distinção. Isso se organizava também em uma relação vertical onde os órgãos observados na mulher, versão diminuída ou complementar do sexo do homem segundo as épocas, situavam-se, portanto, abaixo. Foi preciso esperar o século XVIII para que o sexo fêmea aparecesse, aparição que Laqueur nos convida a compreender como uma operação de reasseguramento masculino. Pois ao dar uma existência específica aos órgãos das mulheres, são os dos homens que continuam, desde então, a assegurar sua superioridade, numa época em que se temeu que o saber sexual fosse capaz de questionar a hegemonia masculina. Desde então, há, dizem, dois sexos, mas por quanto tempo ainda?
Mas então, por que dissemos que ele era o primeiro, Thomas Beatie? E por que dissemos «grávido» e não «grávida»? O que essa formulação pode nos ensinar sobre o que a história de Thomas Beatie produz ou revela em termos de saberes sexuais e de seus efeitos? O corpo-trans porta a marca da «recusa do feminino», ou não seria antes nos efeitos do corpo-trans, tal como é recebido e vivido pelos outros corpos, que se manifesta essa «recusa»? Pode ser que a história de Thomas Beatie faça ressoar em cada um de nós as lembranças enterradas da experiência da diferença sexual, da qual a «recusa do feminino» testemunha uma forma de resolução, e da qual Thomas Beatie questionaria em cada um de nós a possibilidade de outra «solução», outra via possível à experiência do «rochedo».
Thomas Beatie, «grávido» sem «a»
Thomas Beatie é um homem (FtM) americano nascido em 1974 no Havaí, sob o nome de Tracy (Beatie, 2008). Ele se tornou homem após um tratamento hormonal e uma mastectomia. Ele não recorreu, contudo, a uma «redesignação sexual cirúrgica», tal como uma faloplastia ou uma metaidoioplastia; ele conservou, consequentemente, seus órgãos reprodutores: seu útero, seus ovários. Casado com Nancy, sua esposa, Thomas se engajou em um procedimento de procriação medicamente assistida. O casal deseja ter filhos desde o início de sua história, mas Nancy é estéril. Thomas Beatie deu à luz por «via natural» a um primeiro filho, em 29 de junho de 2008, seguido de dois outros filhos, em 9 de junho de 2009 e o último nascido em 25 de julho de 2010. Sua história e a de sua família foram amplamente midiatizadas ao redor do mundo, notadamente por iniciativa de Thomas, que desejava fazer conhecer sua aventura. Um livro foi publicado onde ele conta seu percurso (Beatie 2008), e dezenas de reportagens e documentários fizeram o retrato dessa família à primeira vista atípica, mas que se revela pouco a pouco bem ordinária. De fato, é interessante notar nesses arquivos audiovisuais o quanto o imaginário proposto por Thomas e sua família é o de uma família americana ordinária. Todos os observadores concordam em dizer que a vontade de dar uma imagem de normalidade está, por ocasião da midiatização de sua história, no centro das preocupações de Thomas.
«O primeiro homem grávido», disse-se a respeito do Sr. Thomas Beatie e de outros que o foram antes dele, e desde então, esquecendo-se um pouco rápido demais que Thomas Beatie propôs outra formulação nem ouvida nem retida, apresentando-se como
«marido grávido». E isso é algo que devemos guardar em memória para o que se segue. Observemos isto: o «homem» é escrito com «h» minúsculo, «grávido» é concordado no gênero gramatical – sem «a» – do substantivo masculino «homem» que ele qualifica. Ao lê-lo e dizê-lo, esse enunciado parece dar corpo e sentido a uma realidade pouco habitual, reputada impossível mesmo.
Ao formular sem dúvida rápido demais «o primeiro homem grávido», o enunciado esmaga e camufla o que se revelava num desvelamento brutal, um desvelamento do sexual; ele é um socorro de emergência, mas não obstante eficaz. Ele trata por uma formalização simbólica o que do Real, do real do sexo se encontra ao mesmo tempo recoberto, ou talvez desmentido. Pois, afinal, por que não diríamos
«o primeiro homem grávida»? Por que essa concordância gramatical, no gênero masculino, tão rápida, tão facilmente consentida? O enunciado celebra um ponto de verdade da história de Thomas Beatie, respeitando o que seria considerado sua identidade sexual, a saber, que ele é um homem, e que, por conseguinte, convém masculinizar ou desfeminizar a grávida do corpo de onde ele fala? A supressão do «a» se articula à boa maneira de dizer segundo as conveniências, para ir no sentido de sua trajetória pessoal? Ou essa operação de concordância realiza ainda outra coisa?
Fazemos a hipótese de que essa reescrita da grávida sem o «a» – em relação ao seu uso corrente – é uma desfeminização do termo que tende a manter o homem com «h» minúsculo em seu devido lugar no discurso, e o que parece sobreviver de uma
«ordem simbólica». Ao renovar a ortografia, é ao homem que precede no enunciado que se pensa, é a ele que se ajusta concordando o qualificativo com o substantivo ao qual se refere. Não é certo que se dê conta nessa formulação, por um lado, da verdade que Thomas Beatie encarna, e que merece ser assinalada por uma gramática menos normativa e ortografias mais floridas. Uma verdade que nos vem, nos re-vem e que nos ensina, nos retorna sob uma forma, sob uma nova figura do parentesco, algo previamente perdido ou abandonado. Uma verdade-rebento que não é apenas um recalque, que talvez assinale a exclusão desde fora de um saber insuportável no interior, inquietante ou louco. Não diríamos que um «homem grávida, é alucinante!»?
Mas o ouvimos, esse «a» que retorna, ou que nos aparece, quando
«o grávido» se concorda ao homem como se fosse seu assunto desde sempre, como se fosse óbvio de repente que o homem porta a criança e dá à luz, como se nada fosse? É espantoso, e há um risco de jogar o bebê fora com a água do banho ao se concordar rápido demais ao homem da gramática e a suas regras. Esse homem capaz de gravidez se assemelha, a ponto de se enganar, a uma construção teórica infantil capaz de garantir um estado de indistinção sexual, que a experiência da diferença sexual vem demolir, deixando aparecer os efeitos da bissexualidade psíquica. E, olhando bem, ser «grávida» não é tão simples assim etimologicamente falando. Isso vem do verbo «cercar», que quer dizer «rodear», «circundar». Estar «grávida» significaria, portanto, estar rodeada por algo. É, portanto, o feto que merece ser dito «grávido», pois ele é rodeado pela placenta, pelo ventre da mãe, etc. Mas também se diz «ficar grávida» – como ficar apaixonado ou doente – que se aproxima mais do fato de ter se tornado «um recinto» pela gravidez, um recinto que acolhe o feto.
A expressão corrente rejeitou literalmente o artigo definido «um» para dar
«estar grávida» simplesmente. Pode ser esse o rebento da verdade que acabamos de evocar acima. «Estar grávida» ou «ser um recinto» em razão do estado fisiológico da gravidez parece depender da possibilidade da gravidez em primeiro lugar, e menos diretamente do que a expressão corrente e sua concordância gramatical deixam entender: a saber, que seria um assunto de mulher, quando é um assunto de gravidez. Se o uso corrente realizou essa concordância, não é sem fundamentos nem questões em jogo. Foi preciso, sem dúvida, fazer a gravidez se manter com a mulher, fazer a mulher se manter à possibilidade da gravidez, fazer a mulher se manter vis-à-vis do homem, ainda que enganando a gramática, ela mesma tornada cúmplice de um truque sutil com fins inconscientes. É que uma ordem deve se manter, poderíamos dizer, uma ordem simbólica, mesmo que possa ser imaginária. Concordar-se ao homem rápido demais pode nos fazer perder que a grávida é antes de tudo um lugar, um lugar do corpo, bem antes e bem depois de ser um qualificativo ou um estado.
A linguagem nos permite, portanto, reduzir a coisa, o lugar da grávida a um estado, uma qualidade, tentando fazer calar ao mesmo tempo o impensável da gravidez para fazê-lo passar por algo que passa, que não dura – como o amor ou a doença, aliás. Com um homem grávido, prolongamos o arranjo estrutural, linguageiro da mulher no discurso, e é o corpo em oco, o impossível e o impensável da mulher, o real do sexo que continua a ser rejeitado sem que seja possível se livrar dele completamente, pois ele nos retorna ou persiste até nas pequenas letras. A gravidez é uma ocasião de fazer um lugar impensável se manter com um enigma que não o é menos, e de fornecer sem dúvida um pequeno conforto pela ilusão de um domínio, de uma organização.
O subterfúgio linguageiro da «grávida» que acabamos de percorrer se apresenta sob essa luz como um vestígio, um lugar de celebração paralelo ao lugar do corpo da mulher santificado. O enunciado «o primeiro homem grávido» porta então a marca dessa operação inconsciente de afastamento, de dissimulação de uma verdade incômoda, uma «recusa do feminino». Ele testemunha em seu cerne essa sutura deixada pela verdade rejeitada. Mas qual é ela? Façamos outra hipótese. O «a» desfeito porta em si o traço de um desejo contrariado que se pode considerar na seguinte tradução: «Ser uma mãe como um Homem», com um homem maiúsculo «H», como ilustração possível de uma fantasia articulada à «recusa do feminino». O que corresponde bem ao projeto de filho de Thomas Beatie, que é um projeto de pai, homem e marido. Seu objetivo parece ser construir uma família completamente diferente da sua. Sem dúvida, ela não teria podido conhecer esse desenvolvimento se ele não tivesse encontrado Nancy, por quem se apaixonou e a quem fez «doação de gestação», a ela e a sua família.
«Ser uma mãe como um Homem» é, entre outras coisas, ser uma mãe em «bom pai de família» segundo a expressão consagrada.
Na midiatização dessa história, a questão do gênero se revela socialmente encarnada; trata-se dos papéis parentais tradicionais que são finalmente valorizados, longe do sexo, que permanece atribuído ao corpo ou ao que é considerado da anatomia e de suas funções naturais; um certo incômodo é evitado. E o desejo de normalidade do projeto de Thomas e Nancy encorajou perfeitamente essa leitura dos acontecimentos, pois, no fundo, se o conjunto das mídias1 cobriu com uma benevolência muito grande sua situação, é sem dúvida porque os valores familiares e o cenário, como dissemos, de uma América serena consigo mesma foram preservados, e através desses elementos uma paz relativa sobre as questões sexuais de fundo que puderam permanecer não ditas e inconscientes. Nancy amamentou as crianças, Thomas «deu à luz como
marido» e não como homem, mas como homem responsável de família. Não é, aliás, o que Thomas diz de si mesmo quando se expressa dizendo: «marido grávido», «Meu nome é Thomas Beatie e tenho uma família», «Dar à luz como marido»,
«my own surrogate»… Eis o que normaliza a família, os pais e as crianças. Thomas Beatie enquanto transexual representa um incômodo no gênero, mas enquanto homem grávido sem «a», ele parece bem menos perturbador com a ajuda da língua, de nossas concordâncias gramaticais e do socorro do direito e da Lei. Sem esse «a», o «feminino» problemático é dominado para assegurar a calma necessária ao aparelho psíquico.
A «recusa do feminino»?
Retomemos as questões levantadas a partir do caso Thomas Beatie, e notadamente esta muito representativa: será que o corpo-trans é a marca da «recusa do feminino»? Ou será, como sugerimos, o efeito do corpo-trans em sua recepção que pode suscitar uma reação relacionada a essa «recusa do feminino», dando lugar, por exemplo, à ablação do «a» como proteção?
O que é a «recusa do feminino»? Freud formulou a «recusa do feminino» em 1937, no fim de sua vida, no artigo Análise terminável e interminável (Freud, 1937). Freud traduz aqui o que ele nomeia igualmente o «rochedo de origem» contra o qual vêm naufragar todos os esforços terapêuticos. Notemos que essa proposição constitui um après-coup teórico, como observa Jacqueline Schaeffer (Schaeffer, 1997), après-coup onde Freud posiciona a força da pulsão – em sua dimensão quantitativa – como problema «originário» responsável por esse combate com o eu. Ao fazer isso, ele precisa e articula em seguida sua reflexão para transportar de certa forma essa dualidade combativa sobre a histórica bissexualidade psíquica dos seres, bissexualidade que é a sede de tensões internas originárias também. Dessa reflexão, Freud traduz a «recusa do feminino» como exemplar da reação dos seres sexuados diante de um certo «fator», e Schaeffer tem razão em assinalar que não é tanto a «recusa do feminino» que coloca problema, mas o «feminino» em si. Esse artigo é, portanto, a ocasião de retornar, para Freud, sobre uma consideração renovada de sua abordagem, a partir da bissexualidade psíquica dos dois sexos e da recusa do feminino nos dois sexos, para avançar sobre os obstáculos encontrados na continuação da análise.
Tomemos o texto em alguns detalhes. Freud nos traz de volta, segundo nossa leitura, a um ponto ligado aos efeitos da pulsão sobre a edificação do corpo como produção psíquica. Quando ele escreve: «A força pulsional constitucional e a modificação desfavorável do eu adquirida na luta defensiva, no sentido de uma deslocação e de uma restrição, são os fatores que são desfavoráveis à ação da análise e podem prolongar sua duração numa conclusão impossível. […] a questão a colocar deveria ser: quais obstáculos se encontram no caminho da cura analítica.» (Freud, 1937) Ele situa a possibilidade de uma dificuldade do processo terapêutico no próprio lugar da constituição do psiquismo. É, portanto, de origem que os elementos que fazem obstáculo são conhecidos, ainda que o recalque originário dilua o traço, ainda que eles reapareçam sob os traços de um «rochedo» encontrado no curso da cura, quando ele é, no fundo, redescoberto. O que nos encoraja a assinalar no texto freudiano como esse «rochedo» que a análise reativa à sua maneira se edifica sobre os vestígios de uma construção psíquica sem equivalente. Isso nos permite sublinhar que, se a psicanálise não persegue um objetivo predeterminado a atingir, não deixa de ser que ela persegue certos fins.
Mais adiante, ele considera a transferência negativa, a domesticação necessária da reivindicação pulsional… E, de passagem, ele interroga o fim, não do termo, mas do objetivo da análise: «Nossa teoria não reivindica justamente a instauração de um estado que nunca está presente espontaneamente no eu e cuja criação original constitui a diferença essencial entre o homem analisado e aquele que não o é?» (Freud, 1937). É que a análise, nessa via, visa ao estabelecimento de «novos diques», de novos recalques capazes de reduzir a influência pulsional por «correção après-coup do processo de recalque originário, a qual põe fim à potência excessiva do fator quantitativo […].» (Freud, 1937) Infelizmente, os resultados parecem frequentemente parciais aos olhos de Freud, e pouco a pouco emerge a ideia de outros motivos que seriam responsáveis por essas falhas ou por esses inacessíveis sucessos terapêuticos. Ele desenvolve em seguida o dualismo pulsional onde a tensão, o combate e a rivalidade aparecem como qualidades emergindo desde o fator quantitativo. Freud postula novamente, e à imagem da pulsão de morte acoplada à pulsão de vida, a possibilidade de um conflito de orientação da força pulsional segundo vias de liquidação concorrentes. Ele se apoia então na questão da bissexualidade constitutiva e da heterossexualidade vivida – como escolha de objeto – que não podem coabitar num mesmo indivíduo sem criar uma tensão interna. Encorajado pela conferência de Ferenczi de 1928 sobre O término das análises (Ferenczi, 1928), Freud escreve: «É incontestável que os analistas não atingiram completamente, em sua própria personalidade, o grau de normalidade psíquica ao qual querem fazer seus pacientes acederem.» (Freud, 1937). Ao afirmar isso, Freud deixa entender que os obstáculos à análise são inerentes à psicanálise e que os próprios psicanalistas são um dos lugares dessa resistência. Anunciam-se, aqui, em nossa opinião, as premissas do futuro desenvolvimento sobre o rochedo.
Na última parte do desenvolvimento do artigo, Freud avança sobre a bissexualidade psíquica e a «recusa do feminino» nos dois sexos, e conclui: «Não pode ser de outra forma, pois para o psíquico o biológico desempenha verdadeiramente o papel do rochedo de origem subjacente. A recusa da feminilidade não pode evidentemente ser nada além de um fato biológico, uma parte desse grande enigma da sexualidade. Dizer se e quando conseguimos numa cura analítica dominar esse fator será difícil. Consolamo-nos com a certeza de que fornecemos ao analisando toda incitação possível para revisar e modificar sua posição em relação a esse fator.» (Freud, 1937). Essa passagem atrai toda a nossa atenção, e é a partir de sua leitura e de sua interpretação que tentamos propor uma visão dessa «recusa do feminino» à luz do caso de Thomas Beatie, que representa talvez uma
«solução» ao «rochedo». A conclusão do artigo é espantosa, pois é ao mesmo tempo o reconhecimento de uma impossibilidade do trabalho analítico de conduzir o analisando além de um certo ponto, e ao mesmo tempo a recomendação de que a análise esteja em condições de oferecer ao analisando a possibilidade de lá chegar e de se situar em seu próprio nome. Thomas Beatie encarna, por seus arranjos singulares, uma superação em ato do «rochedo»? Ou confirma, pelos efeitos suscitados nos outros, o ponto de impasse?
Esse «rochedo» pode então ser considerado como uma via sem saída dando à análise sua infinitude? Não nos é preciso considerar que o «rochedo» é, ao mesmo tempo, certamente insuperável e, contudo, ultrapassável. Ele é, com efeito, a marca de um inacessível do sujeito, do qual, pela análise, podem se ouvir as coordenadas de seu arranjo histórico, e isso, ao ponto de permitir ao próprio paciente considerar uma possível mudança de posição em relação a esse fator e dispor de um novo grau de liberdade relativo.
Não é essa uma definição possível dos fins de uma psicanálise? O «rochedo» pode muito bem ser percebido aqui como o rebento último do inanalisável do sujeito – o umbigo final –, em torno do qual ou a partir do qual se ativa seu desejo de verdade, seu desejo e a capacidade de reabertura do processo de elaboração. Não é, ao término do trabalho analítico tal como Freud o pensa aqui, o retorno ao traço do primeiro apoio sobre esse movimento primeiro que, instaurando o recalque originário, permitiu, a partir do corpo e pela linguagem, a emergência do sujeito? O «rochedo» não é, nessa via, o afloramento desse impossível retorno, perceptível apenas por uma ou outra de suas concreções, ou por uma de suas bordas? Não é a isso que Thomas Beatie faz eco no que ele representa, como uma espécie de compilação do que foi outrora distinguido e separado? O «corpo-trans» não vem dar uma forma e uma representação «real» a essas questões de ordinário mais obscuras e sem corpo? Estimamos que esse «corpo-trans» é uma nova presença de questões mantidas a discrição habitualmente, sem formas e sem figuras, que nossa modernidade torna visíveis.
Mas então, por que falar do «feminino»? Por que esse retorno toma forma aqui sob o selo da diferença sexual em particular, com o feminino como estandarte? De qual feminino Freud fala aqui? Talvez se trate aqui de identificar a necessidade primeira para o sujeito em devir de se elevar desde o corpo hospitaleiro que acolhe sua emergência (o seu próprio e confundido com a mãe em função), no interior pela pulsão e os órgãos, e em sua superfície pela linguagem e a imagem do corpo?
O feminino não remeteria aqui ao fato de que, no limiar da vida, todo ser é marcado pela bissexualidade psíquica originária, mas que, além disso, ele ocupa essa posição fundamentalmente feminina que lhe permite assumir uma passividade que é a condição da constituição do sujeito. O feminino de que falamos não poderia, obviamente, ser restrito à «feminilidade» genital. Podemos pensar aqui no trabalho realizado pelo ego nascente, «de introjeção dos movimentos pulsionais intensos, mas tornados toleráveis pelo lugar que ocupam na relação primitiva.» (Roussillon, Schaeffer, 1997). É um feminino matricial, o do corpo dos órgãos onde a pulsão se desperta, que seria recusado a título do período originário que ele representa para cada ser, recusado pelos efeitos da análise quando a análise reconduz o analisado a este ponto de sua história pessoal psíquica, e que só pode suscitar nele a rejeição de não poder ser reconhecido por ele, sem o convidar a se desvencilhar, a desviar o olhar e a recusar o que já se constituiu no passado por negação: Verdrangung, Verneinung, Verleugnung… (Rabinovitch, 2000). Não é à sua maneira o que Thomas Beatie encarna sob a forma de um retorno quase alucinatório, obrigando a reagir para circunscrever o conflito psíquico que ele suscita, para situar a possibilidade da gravidez fora do homem ou a ele constrangê-la «à força» e fazê-la passar por uma «atualidade do passado»? O «recusa do feminino» provocado – e parcialmente encarnado – por Thomas Beatie seria então uma repetição, ou um eco de um movimento de rejeição-negação fundador. Thomas Beatie representa essa «feminilidade» no paradoxo de ser mãe como um Homem. É aqui que se ativa a «recusa», no ponto do «rochedo» sublimado, superado e renovado por Thomas Beatie, como se conhecer sua história fizesse viver uma experiência cujos efeitos se aproximam do «rochedo» enquanto efeito da análise.
Distinguimos, portanto, o «rochedo» biológico e a «feminilidade» que a ele se refere na pena de Freud. Não é o todo do «feminino», embora faça ressoar suas marcas psíquicas em uma atualização que interessa à cura, mas que também se manifesta fora da cura. A retomada por Freud da bissexualidade psíquica constituinte como argumento, acompanha-se da constatação de que não pode ser de outra forma. Assim, pode-se pensar que o «feminino» recusado se deixa fundamentalmente ouvir na letra
«e» mudo, símbolo do silêncio lançado sobre essa bissexualidade psíquica problemática e insistente.
Mais do que um ponto de parada que impede de avançar para ir mais longe na análise, o «rochedo» é aqui uma espécie de ponto de chegada, ou um ponto decisivo da análise, revelador, em todo caso, de uma certa progressão do trabalho realizado. Quando a análise é conduzida até lá, não entramos nesses territórios onde as palavras às vezes se perdem por não poderem mais sair de um corpo diante do qual elas falham? Não somos então constrangidos a um trabalho de rememoração que, acolhendo o retorno de movimentos datando de um tempo anterior à linguagem, pré-genital, lhes daria figuras humanas? O psiquismo não tem então a tarefa de fazer, tanto quanto possível, vir à linguagem esse foro íntimo onde ele toca o corpo do qual se origina? A «recusa do feminino» não é a testemunha de uma história sem palavras, que, ao ser convocada no presente analítico, apreende o analisado e o condena a recusar o que, no entanto, originariamente, se realizou para fazê-lo existir, mas cuja possibilidade de um retorno faz estremecer? É que sua qualidade «originária» obriga o sujeito a repetir a rejeição sem mesmo poder se lembrar, pois desse recalque (originário), de retorno habitual nada é esperado. Não é isso que se produz na
ablação do «e» de «enceinte», manobra eficaz, mas nem definitiva nem completa, assim como Thomas Beatie vem nos lembrar? Thomas Beatie se encontra a realizar o
«rochedo», desviando-o parcialmente, tornando-o superável em sua efetividade biológica, e reatualizando seu caráter insuperável, já que gerador de arranjos linguísticos que tendem a circunscrevê-lo novamente. Ele prova, de passagem, que nada das transformações técnicas e corporais exonera ninguém dos processos psíquicos inconscientes necessários à sua integração psíquica. Se suas leis não se transformam tanto quanto se atualizam, isso nos oferece, apesar de tudo, novas perspectivas terapêuticas no presente de suas atualidades psíquicas.
Para concluir
Freud escreve no final de sua conclusão: «modificar sua posição em relação a esse fator». Não há, certamente, esperança de eliminar o fator, mas as produções psíquicas que dele resultaram podem hoje, ao final da análise, ser reconsideradas, um espaço se abre. Esse fator que faz aparecer que a diferença sexual sustenta e permite a emergência do próprio sujeito pelo reconhecimento da diferença sexual por sua própria conta e a dos outros, desempenhou um papel essencial para essa obra necessária e clivante. Ele pode, agora, por ocasião da análise, ser visto de outra forma pelo analisado. Entendemos aqui emergir a possibilidade de um novo posicionamento ético do sujeito em relação a esse fator – entendido como a diferença sexual originária onde o sujeito se diferencia sexualmente de existir como um; surge então a possibilidade de reintegrá-lo em uma elaboração analítica capaz de dar uma versão diferente daquela cuja marca havia sido encontrada na análise como geradora mais de divisão do que de união. Pela análise é restituída ao ser sexuado a possibilidade de pensar sua constituição pessoal histórica a partir e na diferença sexual e de nutrir por ela sua ética pessoal. O «gênero», que os pacientes às vezes empregam, não pode na clínica ser trabalhado nessa perspectiva terapêutica e ética psicanalítica? A história de Thomas Beatie nos faz viver a experiência de uma operação de «recusa do feminino» em grande escala, que situamos em particular, à vista dos elementos que acabamos de percorrer, na recepção de sua história pelo público, pela mídia. A correção ortográfica de «l’enceinte» sem «e» é uma espécie de retificação sexual no nível da linguagem. A história de Thomas Beatie nos remete a esse «fator» identificado por Freud e ao interesse do «rochedo» quando ele torna possível que o sujeito revise sua posição, o que a análise permite questionar e renovar como Freud esperava. Para que, a partir de sua «recusa», o «feminino» possa ser entendido como o suporte de uma criação moderna de um novo gênero que se situa na continuidade psíquica daquela que a experiência tornou necessária ao sujeito.
Bibliografia:
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LACAN, Jacques (1974-1975), Real e Simbólico e Imaginário, O Seminário, Livro XXII, Dactilografia, Association Freudienne Internationale, Inédito.
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