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Sobre a forma da nomeação (2018)
Cadernos da Escola de Psicanálise Sigmund Freud, n°111, 2018, p. 47-60.
ANTES DA CORREÇÃO PARA OS CADERNOS
Fazer a experiência do passe no dispositivo da escola é encontrar um procedimento vivo.
Fazer o passe não é um fim em si. Apresentar-se a ele encerra o desafio essencial; sair dele reserva surpresas. Cada um se engaja por sua conta e risco.
O passe na cura não é uma questão trivial, mas é sustentado pela transferência. O passe no dispositivo da escola põe à prova o vínculo da escola, esse eco sem equivalente da transferência no coletivo. Colocá-lo em jogo implica o engajamento da inscrição, a existente ou a futura.
Na entrada e na saída deste procedimento, encontrei, em nosso dispositivo, “problemas”; pouco depois do sorteio dos passadores e ao final do trabalho do cartel. Vou me deter, hoje, no termo do procedimento, no anúncio feito ao passante, apostando que os “problemas” encontrados são produções autênticas do que o passe tenta, desde 1967, não resolver, nem mesmo sempre esclarecer, mas manter não encoberto, para que ainda apareça o que há a fazer saber sobre o irredutível passo do analista.
Este texto é o que tive mais dificuldade em escrever até hoje. No entanto, preenchi páginas, dei a ler e a ouvir. Aqui, é outra questão. Há nesta exposição formulações que permanecem indelicadas, apesar dos meus esforços para formular da melhor forma; que este aviso as enquadre. Meu propósito não é questionar o trabalho do Colégio; fiz-lhe saber meus sentimentos sobre o que aconteceu por correspondência. Não quero incriminar ainda mais o trabalho do cartel que fez o que pôde, nem a pessoa em particular que foi encarregada pelo cartel de me dar o resultado de seu trabalho. Esclareço isso, por um lado, porque não é de forma alguma aos membros do Colégio que me dirijo, mas à estrutura geral do nosso dispositivo que é o Colégio para a Escola, bem como ao cartel de passe enquanto instância e não a um cartel de passe em particular. E, por outro lado, porque depois de uma reflexão bastante longa, escolhi reter os significantes que constituíram este anúncio, a fim de fundamentar minha elaboração a partir deles. Pois o que aconteceu nos superou, o porta-voz do cartel e eu, de forma bastante dura, sem que fosse totalmente possível, finalmente, definir quem este “nós” reúne. Aposto que este “nós” acolhe um pouco da escola; um pouco da escola e além dela.
No Colégio, pedi para poder falar, mas ele não pôde atender ao meu pedido no tempo que me é próprio, remetendo-me ao “tempo para compreender”, sem aceitar nem recusar meu pedido, como se do tempo do passante o Colégio pudesse saber algo ou mesmo ter a pretensão de responder. Tomo, portanto, a palavra hoje, por ocasião deste dia, tanto para responder ao tema destes 50 anos de passe, quanto porque é simplesmente possível falar aqui, sem reservas nem apreciação “pseudo-analítica” do desejo que motiva esta fala, fala possível e necessária.
Ao fazer isso, questiono o dispositivo do passe, distintamente do procedimento, bem como o cartel de passe enquanto instância, ao contrário do Colégio, que gostaria de sugerir, de passagem, que deveria ser preservado de ter que se considerar demais uma instância (cuja etimologia remete à noção de demanda) e ser deixado em paz como estrutura do dispositivo (cuja etimologia remete à noção de montar) — algo que nossas recentes modificações em sua constituição talvez não lhe ofereçam mais suficientemente por parte da escola.
Tudo o que digo é direcionado a uma esperança de trabalho, aquela compartilhada por analistas às voltas com o real, cuja empreitada é muitas vezes tornada inutilmente penosa pelo impossível do grupo analítico, com o qual é preciso fazer algo. E já que a humanidade não fez necessariamente outros progressos além dos técnicos, que do des-ser não há filosofia, digo o que me obriga. Certo de que as propostas que se seguem encontrarão um eco.
Vou examinar diferentes pontos: a evolução do tríptico matéria-vida-espírito, o anúncio feito ao passante, a nomeação e suas aporias, três das minhas elucubrações pessoais sobre o passe que me pus a inventar a despeito de mim, três questões e uma pequena atualidade.
Sem transição — pequeno desvio
A convite de Pierre Boulez, em 1978, Gilles Deleuze, acompanhado de Barthes e Foucault, entre outros, interveio sobre o tempo musical. Ele refletiu, nessa ocasião, sobre o tempo não pulsado da música contemporânea, sobre o tempo a priori desvinculado das medidas clássicas, da pulsação e das trajetórias esperadas pelas convenções, e das formatações do som quando é conceituado, notadamente pela arte moderna, em vez de ser pensado musicalmente. Ele tratou, para isso, da evolução da relação da hierarquia matéria-vida-espírito e de sua perturbação desde o início do século XX.
Eu o cito: “Pode ser [ao contrário] que a matéria seja mais complexa que a vida, e que a vida seja uma simplificação da matéria […] Na filosofia também abandonamos o acoplamento tradicional entre uma matéria pensável indiferenciada e formas de pensamento do tipo categorias ou grandes conceitos. Tentamos trabalhar com materiais de pensamento muito elaborados, para tornar pensáveis forças que não são pensáveis por si mesmas.”
Retenho a proposta implícita de considerar uma mudança de grande porte, na história do pensamento, entre o que era concebido sob o prisma da forma informando a matéria, da forma espiritual acolhendo uma matéria informável capaz de, em seguida, informar sobre a vida e, sobre o que Deleuze esboça sub-repticiamente aqui, não uma inversão de paradigma, mas sim uma reviravolta, graças à qual a forma se encontra acolhida (podemos dizer tratada?) pela matéria que a informa e dá forma à vida.
Esta conferência me sugeriu várias ideias. A primeira é uma aproximação entre a alternativa indissociável de uma perspectiva da psicanálise operando um tratamento do real pelo simbólico, e aquela que pode ser formulada pelo tratamento do simbólico a partir do real. Esta concepção, ao mesmo tempo dupla, contraditória sem ser absolutamente contrária, poderia ser aproximada de uma concepção psicanalítica que digo ser da forma a priori contra, bem próxima, daquela da forma a vir.
As propostas de Deleuze invocando essa evolução, determinada pela entrada no século XX e suas mutações sem precedentes, também me sensibilizaram para o advento da psicanálise nesse mesmo período, quando as forças não pensáveis por si mesmas do inconsciente convidaram à elaboração de materiais complexos, sem forma a priori, para trabalhar não na diferenciação dessas forças não pensáveis, mas em sua elaboração.
É, creio, o caminho percorrido por Freud, não sucumbindo ao objetivo solitário da categorização ou da conceituação, que sempre aplana a experiência, preferindo-lhe, contra tudo, as nuances de uma elaboração dinâmica-tópica-econômica.
Sonho — Eu não imaginava que minha experiência de passe aconteceria como finalmente aconteceu. Eu havia, no entanto, tido um sonho, literal, quatro dias antes de receber o anúncio do cartel. Neste sonho, o cartel de passe está em sessão de trabalho. Seus membros, em torno de uma mesa, disputam a construção de uma espécie de escultura, erguida em altura, com contornos pouco reconhecíveis. O debate é acalorado sobre a natureza da construção a ser realizada, entre os defensores da forma a priori e os defensores da forma a vir. Forma a priori e forma a vir como duas fórmulas de duas tendências, dois saberes extraídos de experiências analíticas distintas, opostas, totalmente contraditórias. O sonho termina com esta disputa inacabada, mas problematizada de forma bastante clara. Ao acordar, disse a mim mesmo que a resposta do cartel seria não apenas “negativa”, mas também “problemática”.
O anúncio — O anúncio do cartel foi efetivamente, e “negativo”, e “problemático”. O anúncio que me foi feito, e cujos significantes retomo para nosso proveito, constituiu-se assim: “Sua nomeação não foi unânime”… Pensei que o cartel devia ter concordado com esta forma de dar sua resposta, e que as “explicações”, que me haviam sido anunciadas por telefone, eram sem dúvida necessárias, no sentido de que iriam significar a resposta a ser associada a este anúncio. Na hora, fiquei atônito e impedido.
Das “explicações”, eu esperava poder precisar se se tratava de um desmentido — de uma recusa suspeita —, ou de outra coisa. Ouvi isto: “Nem todos podiam concordar em aceitar sua nomeação”; “certo(s) não podia(m) aceitar sua nomeação”; “Você não obteve unanimidade”; “A nomeação, por mais que se diga o contrário, é também um título”.
Uma recusa suspeita, portanto, referente ao analítico, um desmentido acompanhado de uma confissão política referente à pessoa, portanto à instituição, à escola. Um desmentido, mas quem/o que seria o fetiche? Pessoalmente, seria muita honra e muito título também encarnar essa representação fálica: confesso que não é muito o meu estilo. Penso antes que a nomeação é o fetiche, precisemos mesmo que é o nome de A.E., e até as letras “A”, “E”, que são ao mesmo tempo elevadas ao aparecer e rebaixadas pelo mesmo traço. Se é que minha apreciação do dito desmentido acerta ao considerá-lo um tanto perverso. Tenho, não como provas, mas como sinais as questões não verdadeiramente tratadas em torno das modificações das formulações do nome de A.E., do que isso abrange. Quanto à confissão política, sintoma imaginário, sobre a nomeação como título, voltarei a isso mais adiante.
Aporias — Diante disso, em vez de bater a porta da escola, não tive outra escolha senão apoiar-me nas aporias do passe, na escola, quanto à nomeação, quanto ao nome de A.E.. A nomeação que a experiência da psicanálise, eu pensava, havia, no entanto, bastante libertado de suas sombras, desde 1967 e desde 1994, pelo afastamento do sentido e o desacordo fundamental com a miragem da coerência institucional por parte dos analistas e não-analistas engajados na prática e formados por essa experiência.
Era sem contar que aquilo em que eu contava, na escola, não era necessariamente o caso para outros, não todos, que eu não tinha nem que supor nem que temer, a confiança não é uma questão no passe.
A recusa do impossível do nome com o qual é preciso arriscar-se neste assunto pode perder-se nas miragens do inominável, quando o que é impossível é confundido ou recobre o impossível que não é. Inominável que a voz do cartel também me recomendou ler naquele dia, sob a pena de Beckett.
Era para mim o cúmulo, no entanto, que a experiência analítica pudesse se extraviar a ponto de crer que algo pudesse permanecer inominável, quando do impossível de dizer esta experiência da psicanálise, a meus olhos, tomou o caminho de um tratamento do simbólico a partir do real, o caminho de um acolhimento da matéria impensável que modifica a forma para informar a vida, o caminho aberto pela Escola de Lacan, localizando nas curas, no passo do analista, essa amnésia portadora de esquecimento que o procedimento oferece para ser levantada para a escola, para a comunidade analítica e não para o analista ou o passante.
O que o passe instituído por Lacan em sua Escola permite, há 50 anos, não deixar passar dessa confusão por permissividade, “molecular” diria Deleuze, entre o impossível e o que o é, impossível, confusão tornada possível pelo adiamento repetido dos analistas diante da necessidade de um tratamento do conhecido e do pensável pelo porvir de um pensamento do impossível? Adiamento largamente encorajado, parece-me, pela fascinação imaginária de um além da linguagem insuficientemente submetido à questão da prova do real. Em outras palavras, o passe ainda nos permite, em 2017, não ceder na forma em que sucumbem nossas pretensões, e levantar a cada uma de suas manifestações a informação que a matéria nos oferece para acolher sobre a vida? Em outras palavras ainda, o que nos revela, de nossas pretensões sobre a forma, o que fazemos do passe em 2017? O que acolhemos da matéria que se apresenta ao passe? O que ousamos pensar sobre a vida a partir do passe informado por essa matéria que nos informa?
A nomeação — Em vez de um cartel, uma nomeação foi questionada, foi dita sem unanimidade. Algo da ordem da apreciação de um não sei o quê se tornou um obstáculo a ponto de torná-la impossível, inaceitável, sem acordo, manifestamente contrária às expectativas imaginárias prévias sobre o título, portanto sobre o que é uma nomeação e o que não é. Uma nomeação ao mesmo tempo dita “e ao mesmo tempo” — segundo a expressão política corrente do momento — negativada, desmentida, “macronizada”.
Existem três tipos de nomeações: nomeação do real, à qual se liga, parece-me, grande parte dos trabalhos da EpSF sobre o passe; nomeação do simbólico — contra a qual uma parte da reformulação do nosso dispositivo se posicionou quando La Lettre Lacanienne o deixou — e; eu não havia considerado antes disso, nomeação do imaginário, cuja questão da forma talvez nos sinalize o retorno, já que é isso que a IPA denunciou como impasse em 1967, e sobre o qual se funda a retomada, por Lacan, do significante ipeísta não-analista para levá-lo mais longe, mais longe do que Valabrega faz em sua carta de novembro de 1967. Uma nomeação imaginária da qual é preciso dizer que permanece a mais bem posicionada para acolher o reaparecimento do saber recusado por um desmentido.
Uma das sessões de RSI é bastante clara sobre a nomeação imaginária. Remeto ao texto de Brigitte Lemerer, que muito me ajudou neste ponto. Retendo sua conclusão, que retomo com minhas palavras: se a cura oferece algo, é bem o de superar o sintoma como única saída analítica que o analista no espelho se contentaria em ser, para preferir a forma além da imagem onde o desmentido do real se torna suporte para o reconhecimento do passo dado. Contanto, porém, que a cura tenha sido levada suficientemente longe.
Do cartel de passe — Eu não havia imaginado, anteriormente, que um cartel de passe pudesse concluir seu trabalho com um equivalente de voto. Um voto como conclusão, com maioria ou unanimidade, a respeito de um trabalho analítico, parece-me suspeito. Eu pensava ter encontrado isso apenas com minha banca de tese na Universidade, pouco antes que essa instituição do conhecimento acabasse por me nomear, atribuindo-me o título de professor associado após outro voto, o de um concurso — um concurso onde, é claro, a política institucional havia deslizado seu voto na urna. Nomeação de um discurso, o universitário, do qual acabei me desfazendo ao renunciar para salvar minha pele, constatando, a meu pesar, a perfeita inconciliabilidade — não incompatibilidade — do discurso psicanalítico com o discurso universitário.
Elucubração n° 1 — Suponho que quando uma nomeação ocorre, que ela emerge aos significantes do cartel expulsando o saber que lhe vem do real causa do testemunho, que pela garganta dos cartelisantes novos saberes sobre a psicanálise lhes forçam a voz a tê-los de repente que dizer para se livrar deles e, ao mesmo tempo, fazer um ato de nomeação, é verdade que quando isso acontece, deve-se ficar abalado. Mas por que, ou o que então não se sustentaria o suficiente para que os membros do cartel sustentassem a experiência do cartel? Pois suponho que uma conclusão por desmentido traduz possivelmente uma transgressão, uma passagem ao ato para escapar. Por que o analítico falharia às vezes em um cartel, deixando-o recair sobre as ficções dos grupos onde o voto, onde o ser em comum sob os traços da fantasmática unanimidade, teriam que vir em socorro de cartelisantes sem desvio? Será que o analítico, esse resto do que a insondável dependência da transferência pôde deixar se constituir, deveria ser recusado como saber, onde a pessoa do analista pretenderia a autodeterminação de seu ato refletido sobre si mesma para vesti-lo com uma nova representação no lugar onde nada pode se sustentar?
Elucubração n° 2 — Parece-me, por este caminho, que um cartel de passe opera menos na interpretação do que na construção. O advento desta construção no lugar que o cartel se tornou, que ele pode se reconhecer como sendo, pela presença do construído, afasta todas as necessidades de todas as leituras da matéria que lhe chegou, pois ao atestar esta construção ele nomeia. Não esperamos do cartel que ele faça um inventário dos materiais da análise do passante, ou então isso viria finalmente a dizer que o passe tem a ver com a cura, e de uma maneira estranha.
Elucubração n° 3 — Um cartel de passe não é uma forma da qual se espera uma informação sobre a matéria que os passadores lhe trazem, ele só pode apreciar a matéria que ele se torna. A escultura não tem forma a priori, nem a posteriori. O nome de A.E. é sempre original, inédito todas as vezes que se enuncia, e sua originalidade reside menos na invenção de um passante do que na reinvenção perpétua da escola à qual o passante vem responder. A nomeação, a escultura, que pode se produzir não é uma forma que responde à matéria apreciada. A nomeação me parece muito melhor poder ser pensada de forma deslocada, ela é o eco de um som sem ruído, um crepitar da voz passada ao cartel desde o passante pelos passadores. Este evento de voz, silencioso, é detectável no instante do larsen produzido no lugar real que é o cartel por um tempo. Ele só pode apreciar esta retroalimentação acústica do receptor ao emissor, por seu trabalho de construção retroespeculativa e não especulativa, sobre a matéria do passe ouvida. É assim que o chamado da escola encontra algumas ressonâncias para vir até ela nos passantes, dos quais ela pode fazer com que alguns carreguem um pouco de seu nome.
Não imagino que um cartel de passe possa se engajar no impasse do inominável, evitando enfrentar o impossível, a não ser para fazer valer uma concepção inédita, a meus olhos, do passe nesta Escola, e uma leitura errônea, parece-me, da proposta de 1967. Não o imagino, e minhas experiências como passador, minha experiência como membro da escola, como analista, como passante, todas o recusam. Pois quem/o que seria inominável? Estaríamos, aqui, navegando em meandros onde o imaginário se disfarça, se traveste em um simbólico que reconhecemos falsificado, quando o sigla é tomado pelo símbolo. A.E. é um símbolo, não é um sigla, e ainda temos que escrever sua teoria, para fazer conhecer o que esta era simbólica restrita que ele é realiza do real. A.E. não é um sigla, mas suas pequenas letras fascinantes, reificadas no lugar do nome, sem dúvida nos pregam peças estranhas, sem que percebamos.
O real da nomeação pode dar lugar a um desmentido, fazendo da nomeação publicada, por exemplo em um cartel, o objeto de uma troca com seu gêmeo imaginário que é a ilusão da nomeação impossível. Convocar o inominável e reificar a nomeação impossível, no estojo do desmentido, para evitar o impossível da nomeação seria uma virada bastante nítida, uma passagem ao ato, opostos ao trabalho realizado nos últimos vinte e quatro anos na EpSF sobre o passe.
Questão 1 — Onde estamos, após mais de um século de experiência, com o que retornaria da forma espiritual que teria que informar a matéria, ou continuamos a nos juntar à subjetividade de nossa época, para sustentar um pensamento contemporâneo, definitivamente voltado para outro horizonte que aquele que confiava às formas, um espírito para preferir-lhe uma ausência de forma a priori? Este horizonte, por mais de um motivo, parece-me corresponder à oferta de Lacan quando ele dá o passo desta proposta de outubro de 1967.
Questão 2 — A nomeação designa o movimento do saber causado pelo real que chega ao cartel impelido a dizê-lo e constatar a nomeação como produção desse saber sem outra apreciação? Ou seja, a nomeação é esse impulso de voz que toma o cartel como lugar de enunciado de uma enunciação confiada pelo passante aos passadores? Ou a nomeação deveria se tornar a conclusão de uma apreciação dos efeitos produzidos pelo relato de um testemunho sobre o qual cada um do cartel teria que se pronunciar? Efeitos tomados, erroneamente, por saberes. O que, a meu ver, nos remeteria aos impasses da IPA, obrigando Lacan a formalizar este assunto, e deslocaria também o passe com o real como horizonte para as ressonâncias das subjetividades — mesmo que analisadas — como detector de uma forma em todos os pontos imaginária, à qual cada um é bem livre, afinal, de confiar o teor que lhe supõe, mas cuja persistência ou retorno no passe fazem sintoma.
Questão 3 — A nomeação ainda é essa expressão simbólica da forma imaginária constituída pelo cartel enquanto lugar no real, como testemunham os trabalhos da EpSF entre 1994 e 2000? Ou a nomeação é, finalmente, definida a partir de seus efeitos singulares e coletivos, tais como foram tão amplamente comentados entre 2000 e 2012, dos quais cada um pode ler como puderam encorajar a apreciação da nomeação à luz da causa subjetiva, pela qual o ato deveria ser tão considerado, muito mais do que como causa do coletivo. Produções subjetivas ilustradas por todos esses efeitos de corpo e de realidade tomados como provas ou consistências da borda de um buraco do qual nada diz, a priori, se é verdadeiro ou falso. Um buraco da realidade é antes de tudo um buraco do imaginário, isso não dá acesso ao real nem mesmo à forma que pode vir dele. Pior, a existência prévia, a priori, desse buraco, estruturalmente falando, impede qualquer manifestação possível de um real cuja forma a vir poderia nos levar um pouco mais longe do que esse ponto de contemplação onde nos percebemos ingenuamente. Que o imaginário, na emenda R-I, possa prolongar o real pela forma que ele faz advir é uma coisa, um movimento detectável enquanto movimento analítico. Isso não faz do imaginário o caminho automático de uma detecção do real. O imaginário não especular não é uma ausência de imagem, real ou virtual. Não basta não se perceber para escapar à miragem de si mesmo. Do outro lado do espelho, mesmo para Alice, é uma prova não de passagem, mas de desrealização, isso pode sinalizar a possibilidade de uma abertura para o real, isso não sinaliza a abertura ao real. Assim, a nomeação enquanto forma não é um evento da realidade detectado em um corpo ou nos balbucios do espaço-tempo, ou então é uma ilusão, ilusão da qual as instituições, incluindo uma escola de psicanálise, se deliciam. Poderíamos tirar muitos ensinamentos, a esse respeito, dos encontros recentemente ocorridos com as ondas gravitacionais, que não são vistas e não performam na realidade sem, no entanto, escapar à sua detecção no escuro.
Nomeação e atualidade da Escola — O evento de crença no título de A.E., ao qual aludi, não é apenas uma falha de experiência que despreza os avanços do passe nos últimos 50 anos, é também a expressão de uma deficiência atual de nossas teorizações sobre o passe. Uma deficiência de princípio, quando a nomeação continua a ser considerada, ou acreditada, como um ato complementar ao próprio passe, pior, à análise. A história, no entanto, respondeu a isso: o que não fizeram, a quantidade de A.E. nomeados de sua nomeação simplesmente abandonando a experiência? Além disso, não detectamos em nossos trabalhos uma maioria de “o que significa ser nomeado na escola” e muito menos de “o que os nomeados fazem à escola”? Isso não sinaliza um deslizamento de um nome de escola para um título de membro, que daria conta da dimensão subjetiva da nomeação em detrimento de seu alcance analítico para a escola. Isso se sustenta em outro deslizamento, o da nomeação de escola em favor de uma nomeação/rotulagem de membro pelas pequenas letras, embora maiúsculas, que talvez suplantem o nome.
Isto me faz pensar neste processo que chamamos de radicalização. Considero a radicalização como esta tentativa de redução do significante ao seu radical quando este último é esperado para performar o falo que vem a falhar. Se alguns indivíduos encontram a possibilidade de se engajar na presentificação, em carne e osso, do significante fálico, nos atos terroristas recentes, é bem porque recentemente nos deparamos com uma modificação da relação significante performativo, outrora distinguida pelo que do sujeito do enunciado não se confundia com o da enunciação. O radical outrora mantido em segredo, ou na sombra, está agora em posição de ocupar a função do performativo, reificando os EU impulsionados à sua própria expressão além da falha fálica, que as agitações significantes em seus lugares sinalizam indiretamente. Agitações todas arranjadas em torno da língua balbuciada sob o peso dos sermões, legalizadas por algumas inscrições de algumas letras traçadas na areia que um vento do Oriente afasta e santifica. Não deixando nenhum espaço para todo o possível de fazer algo com aquilo de que podemos prescindir. Teremos que, com o apoio dessas terríveis atualidades, examinar nosso hábito um tanto rápido de qualificar o passe como performance, seu “sucesso”, onde encontra sua justificativa essa pseudoteoria edificante segundo a qual, quando uma não-nomeação acontece, isso significaria que “não passou”. Sempre passa; resta saber o quê, isso é diferente, isso indica que um saber se imporá ou não ao conhecimento de todos, que haja ou não uma nomeação ou uma não-nomeação. Significante e performativo não mantêm mais hoje as mesmas relações de outrora.
O que pensar do recente desaparecimento do artigo indefinido “uma”, diante do termo “nomeação”, nos anúncios das nomeações divulgadas pela Escola — o desaparecimento do artigo indefinido “de” diante de AE já havia sido ratificado nos anúncios anteriores? O regulamento do dispositivo, modificado em 2015, mantém a menção “uma nomeação de AE” (sem os “.”) e não “deu lugar a nomeação AE” como recebemos recentemente.
Sem a possibilidade de enumerar as nomeações, uma por uma, a que infinito/não-definido da nomeação nos expomos, com o risco de constituir imaginariamente uma nebulosa em breve encarregada de adicionar ao mito uma função alter ao passe nesta escola? Esta Nomeação com N maiúsculo, não correria o risco de ser tomada por um deus ideativo a quem render graças quando se eleva acima da articulação significante ordinária, semelhante a Santas Escrituras? Isso poderia se alimentar de um pensamento imaginário da nomeação, uma unanimidade da totalidade nominal tão simplificadora quanto o fascismo. A Escola precisa de A.E., não o analista, ele precisa da Escola, a diferença não é pequena. É que o nome de A.E., particularmente em sua versão histórica de A.E.-Analista da Escola, é um nome de Escola e não um nome de analista, e muito menos o de um membro.
As pequenas letras, embora maiúsculas, talvez suplantem o nome. Nomeação e letramento não são equivalentes. Será preciso voltar a isso, pois o estreitamento às letras, apenas as letras, que vivemos não deixa de fazer pensar em uma tentativa de representação da instância da letra no inconsciente, uma forma de escalpo do inconsciente que o A.E. teria que figurar.
Conclusão — As questões que o passe levantou, ou revelou, em 1967 permanecem intactas. Os efeitos de ter confiado ao não-analista o controle do ato ainda são tão vivos e divisivos. Isso não é um fracasso — no sentido comum —, não há nada a reduzir, mas tudo a colher onde cai, logo atrás da queda do sujeito e sua destituição em eco uma da outra — do analisando, do analista.
O fracasso é o nome desse passo sobre o qual o analista se funda quando falha em transmitir — porque lhe resta apenas a perpetuação —, quando deixa cair o que não pode, o que não pode ser conservado, nem pelo analisando que passa ao psicanalista, nem pelo analista de agora — o que não significa que eles não tenham que reencontrá-lo, levantá-lo de onde se diluiria o peso do vazio do qual se sustentam em favor de uma segurança bem duvidosa, recusando o não-analista que são um e outro, alternadamente e para sempre, sem semelhança. O fracasso é uma nomeação por Lacan, desse passo que o havia interrogado a ponto de propor o passe. Quer lhe agradasse ou não, ele não pôde fazer outra coisa senão nomear o que se revelara a ele, e a outros, em sua experiência do passe. O significante que saiu é “fracasso”, é muito bom. Etimologicamente, fracasso significa butim, e nos vem do alto alemão antigo schâh (“saco”) que impede, segundo a literatura, de ligar esta palavra fracasso a “caber”. Eu a ligo, portanto, a “cair”, pois não há mais, de fato, sujeito suscetível de pretender que isso lhe retorne, resta apenas do analista sobre o qual isso cai. Do analista que o passe não é capaz de atestar, nem sua presença nem sua formação, o que constitui a base de seu fracasso do lado do cartel. Notemos de passagem que dessa mesma raiz, pelo menos três séries de significados surgiram, aquelas ligadas a cair, caber e decair, às quais devemos a queda, o vencimento e a decadência.
Tudo isso se diz, e será a palavra final, em um verso célebre de Angelus Silesius, a quem se fez referência inúmeras vezes este ano: A rosa é sem porquê. Eu acrescento: o analista compartilha a mesma luta.
Vincent Bourseul
Paris, novembro de 2017.
Nota adicional
Às perguntas e comentários que se seguiram à minha exposição de novembro, pude formular o seguinte, que se acrescenta:
O dispositivo de passe pode nos proteger daquilo a que o procedimento nos expõe? Este é o cerne de todos os tormentos, acidentes e dificuldades encontrados desde o início desta experiência. Após algumas tentativas de pensar sobre isso, sempre volto a Por que a guerra, entre Einstein e Freud. A morte e a agressividade permanecem, pela atividade pulsional que as testemunha, fontes inesgotáveis de redução de nossas liberdades. Por nossa iniciativa individual ou coletiva, trazidos que somos à beira do real pela experiência do passe, conduzidos ao impossível que não cessa de não se escrever, cada um pode ser atravessado por sua própria sobrevivência que frequentemente engaja o outro em sentido contrário. E nos separamos, temporariamente, neste intervalo de espaço e tempo onde o coletivo carrega a marca de ser apenas o sujeito do individual. Convocado ao ponto de sua sobrevivência, o sujeito pode fazer prevalecer a sua, ou seu sacrifício individual, sobre o coletivo. Talvez pudéssemos ver nisso o indício de uma regressão coletiva, forjada sobre as individuais que as curas permitem, em direção a este ponto onde o pulsional se desliga sub-repticiamente do orgânico — por vezes perceptível nos movimentos de destituição subjetiva —, este último fazendo valer sua exigência de persistir — na vida ou na morte — sem mediação mental, e muito menos de direito. Ali, a intimidade de experiência forjada pela ética, entre o passe e os campos, se impõe. Em O pequeno prado dos vidoeiros, Marceline Loridan-Sivens empresta à sua personagem principal esta interrogação às meninas de Birkenau: foram as piores de nós, as mais duras que sobreviveram em detrimento das outras?
Vincent Bourseul
21 de março de 2018