A sexualidade, esse impensado para a Psicanálise — que deveria continuar assim (2020)

A sexualidade, esse impensado para a Psicanálise — que deveria continuar assim (2020)

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A sexualidade, esse impensado para a Psicanálise — que deveria continuar assim

Publicação na internet, setembro de 2020.

“A Psicanálise não é uma sexologia!” A afirmação é verdadeira, mas recitar esse mantra não basta, nem contém a questão que nos ocupa aqui, a saber, a sexualidade tal como é pensada, ou impensada, pela Psicanálise.

A Psicanálise, que não cessa de ativar a escrita sem fim da concepção do “sexual” (no sentido do além do genital que Freud lhe deu), sob o ângulo da distinção em relação às considerações sexológicas (no sentido das práticas e dos comportamentos), pôde acreditar-se incapaz de tratar “a sexualidade” (não definida pelo campo freudiano), que ela não retinha sua atenção, que não tinha de se pronunciar a seu respeito nem deliberar sobre ela, a menos que renunciasse ao seu princípio de neutralidade, como, no entanto, o fez ao longo de todo o seu desenvolvimento.

O que contribuiu, paradoxalmente, para a crítica pansexualista que lhe foi dirigida por outro lado, funcionando como camuflagem do moralismo que a atingira igualmente até o puritanismo; a resistência tem suas razões — não enquanto a Psicanálise inteira, mas sim pela expressão de alguns/algumas de seus/suas praticantes identificados/as por iniciativas ideológicas duvidosas. Basta lembrar, por exemplo, o estatuto da “regra tácita” instaurada em 1921, que pretendia afastar pessoas homossexuais da formação para a função de analista. Não regulamentar, mas tanto mais eficaz, ela só desaparece oficialmente na virada deste século, sem, contudo, ser “abolida”, nos termos de E. Roudinesco. Com efeito, como separar-se dos efeitos de um não dito, de um tabu, de uma dissimulação perversa como essa regra oficiosa adotada pelo Comitê secreto, por motivações obscuras?

Mais recentemente, os debates do Parlamento francês, durante as discussões sobre o projeto de lei que instituiu o casamento para todos os casais, ilustraram um certo uso da Psicanálise e de suas teorias, com fins politiqueiros, por representantes políticos e por muitos psicanalistas motivados/as a sustentar uma certa visão de mundo, contra todas as expectativas do público ou de seus colegas. Todos/as contra a Psicanálise em experiência, tão longe da clínica psicanalítica, tão perto da ideologia social e política.

Assim, é fácil considerar que a sexualidade coloca questões à Psicanálise e a seus/suas praticantes (analistas e analisantes), a ponto de a ausência de definição dessa noção, fundada no apoio dos saberes inconscientes, parecer legitimar — ou provocar — diversas tomadas de posição conceituais, ideológicas e morais no espaço público, nos debates de sociedade. Certamente, Freud fez uma bela carreira no Sexuel (não nas práticas), por um lado, distinguindo então o campo da Psicanálise de outras disciplinas; e Lacan pôde, por outro lado, sublinhar no fim dos anos 1970 que ainda não havíamos sequer começado a dizer o que é a “sexualidade” em relação ao sexual; não é preciso ir longe para considerar que a experiência da Psicanálise parece incompetente para realizar essa tarefa.

 

Isso não incentivou que as sexualidades, em suas diversidades, pudessem ser levadas em consideração de outra forma que não pelo prisma da singularidade, do caso, pelos psicanalistas e suas instituições. Com o risco, é claro, de afastar uma reflexão sobre as sexualidades não majoritárias, no entanto necessária. Não evitando certas tomadas de posição coletivas sobre questões individuais, absurdas. Favorecendo, ao mesmo tempo, que todas as emergências identitárias sejam convidadas a se fazer ouvir, sejam elas conservadoras ou modernistas, no movimento psicanalítico e fora dele; onde a preocupação da Psicanálise com a civilização e seu mal-estar pode ser interpretada como uma adesão universalista nociva ao sujeito, gerando emergências subjetivas, filosoficamente justificadas e legítimas, cada vez mais afastadas do sujeito do inconsciente.

 

Ainda que possa surpreender, chego a sustentar que se opor à adoção ou ao casamento para todos os casais discute a mesma coisa que a defesa da psicanálise queer, a saber, uma posição reivindicatória do Falo — facilmente confundido com as questões do fálico. Onde, com bastante clareza, o saber pensado pelo prisma acadêmico ou científico faz as vezes de um barrete a ser agarrado, para não ficar sem ele. Isso é, em si, um problema para essa teoria de gênero, essa “teoria feminista fracassada” que é a Psicanálise para G. Rubin.

Além disso, a inteligência das formações do inconsciente e os saberes construídos na análise têm tempo a perder com essas imposturas? Onde a identidade reificada pode barrar que a Psicanálise, na atualidade de sua experiência, ainda seja um vetor de transformações sociais, culturais, políticas e econômicas, pelos efeitos dos saberes inconscientes e não dos saberes reflexivos ou humanistas tão prontamente colocados em destaque.

As questões fálicas, que estão bem no centro do que agita aqui esses debates, abrem-se a seus ultrapassamentos desde Freud com a castração, até o não-todo fálico com Lacan, para citar apenas esses dois senhores. A recusa do feminino, outra maneira de dizer, quer tome a forma da misoginia, da homofobia ou da transfobia, não deixa de estar sempre em ação no mundo em geral, mas também nos meios interessados pela Psicanálise, na Universidade assim como nas instituições psicanalíticas (associações ou escolas).

Sua elaboração não está encerrada; podemos continuar a alimentá-la. Assim, estamos autorizados a dizer como a Psicanálise pensa a sexualidade, se não for dizer o que ela pensa dela, nem que seja ao engajar o tratamento dessa questão pelo desfecho de uma análise, ao término da qual diversas modificações são esperadas — e seria curioso não poder identificar algumas capazes de dar conta dos efeitos da cura sobre a sexualidade.

O que nos convida, de modo mais interessante, a dizer o objetivo da análise e seu enjeu em termos de posicionamentos subjetivos no panorama sexual, a partir das situações de homem ou de mulher ou outras que se apresentam na linguagem, confirmando de passagem que nem a cultura nem a anatomia têm vocação para instruir as escolhas de um/uma sujeito, a menos que se afunde na política.

 

Antes dos anos 2005-2010, raros eram os psicanalistas, na França, a engajar a discussão com as noções de gênero ou de queer. Quase quinze anos depois, ao menos três gerações de estudantes das universidades de psicologia puderam ser iniciadas em algumas considerações sobre gênero, questões feministas ou LGBTQIAPK+…

Instituições ou escolas de Psicanálise, fora da Universidade, acolheram essa questão, deixando frequentemente os traços desse encontro em publicações internas ou monografias, em teses universitárias hoje defendidas. As questões sexuais voltam a ser muito cobiçadas no campo psicanalítico neste início do século XXI, como questões de saberes teóricos sobre um fundo de considerações clínicas. A favor ou contra, segundo uma bipolarização habitual dos debates, impõe-se como repartição dual em que se erguem posições identitárias supostamente capazes de dar conta de concepções acabadas e incompatíveis. O fechamento de um lado contra a abertura do outro; a consideração da subjetividade de um lado, contra o sujeito barrado de outro. A aparente guerra entre modernistas e classicistas não esconde bem a inconsistência de ambas as abordagens. O inconsciente permanece politicamente incorreto , isto contra as maiorias e contra as minorias, pouco importa o valor de suas reivindicações respectivas, por mais legítimas que sejam para denunciar, reclamar ou expressar isto ou aquilo.

 

Os discursos alimentados por esses impulsos fazem ouvir queixas; elas interessam ao ouvido analítico por esse motivo, ali onde a angústia funda a ética. Mas ser minoritário é a única forma de tomar a palavra no divã, sozinho/a para dizer o que libertará do jugo do Outro, quando a separação tiver tomado o lugar da alienação inicial. Um discurso minoritário, contestatório, analisante. Tal é a possibilidade do discurso psicanalítico, que não pode ser confundido com o da Universidade, o da Histérica ou o do Mestre.

Não há por que hesitar quando convém criticar os conservadorismos moralistas, sem necessidade de convocar a teoria da Psicanálise para isso, sobretudo se estamos seguros de seu alcance vanguardista e de seu questionamento perpétuo dos adquiridos, dos semblantes. Mas não é mais útil hoje do que ontem submeter os saberes inconscientes à apreciação cultural, política ou econômica: não há compatibilidade a esperar desse lado, pois não há continuidade entre a Psicanálise em intensão (a cura de um/uma) e a Psicanálise em extensão (o que ela faz aos outros). Disso podemos estar certos agora: as experiências freudianas e lacanianas, tanto no nível da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) quanto da experiência do passe nas escolas de Psicanálise com e após Lacan, o provaram. Também aí, a quantidade e a qualidade dos registros escritos são suficientes para nos apoiarmos nelas.

Seria melhor que fossem explorados e documentados com mais rigor os usos do gênero na cura, seus manejos na transferência, para dizer com as palavras da Psicanálise o que ele permite construir, desfazer, tratar com o inconsciente.

O mundo psicanalítico comentou muito as teorizações sobre gênero, olhando-as como duvidosos vendedores de porta em porta. Às vezes, pôde afirmar aberturas. Na maioria das vezes, calou-se quanto à possibilidade de teorizar em seu seio o que o gênero, o queer ou as questões LGBTQIAPK+ lhe submeteram, sem deixá-lo ileso. Seria preciso, no entanto, aprofundar, pois, por exemplo, dizer o que é o gênero em Psicanálise permitiu deliberar sobre a “orientação sexual”, outra noção delicada, em que a experiência da análise determina que ela não pode ter sentido — isto graças ao uso do gênero na cura. E outras coisas ainda, que somente o aprofundamento da experiência clínica permite enriquecer por sua delicada elaboração teórica e sua passagem ao público fora dos enjeux políticos ou institucionais. Retomar a definição inacabada do sexo, pelo abalo que o gênero induz, permitiu dar conta da criação do sexo novo como construção possível da cura. Não é pouca coisa, se isso interessa, considerar que toda cura desemboca em um sexo novo para cada analisante, e imaginar o que disso podemos deduzir sobre o sexo do analista em função — ou melhor, sobre o que não existe do sexo do analista quando ele funciona como analista para um/uma outro/a. As consequências teóricas e ideológicas ainda são muito pouco exploradas nessa via, embora tenhamos muito a dizer e a formular sobre os efeitos desse retorno do saber sobre o sexual que o gênero sinaliza: um retorno do saber posto em circulação pela Psicanálise, que lhe retorna desde o social (se assim se pode dizer), trazendo em sua bagagem alguns saberes e algumas verdades sobre as proposições iniciais que a experiência freudiana começou a dar a conhecer ao maior número, que não deixa de reagir e de vir falar nos consultórios para fazer avançar o Schmilblick.

 

Dizer o objetivo da análise e a maneira de apreciá-lo quando é alcançado permanece um desafio tão produtivo quanto impossível; abordá-lo pela questão do fim da análise não o alivia. Objetivo e fim não se confundem, nem sequer se aproximam; desenham um intervalo em que respostas são tentadas.

O que a cura visa e como isso se constitui em saberes não terminou de ser interrogado, em cada uma das curas conduzidas, para cada analisante, portanto de questionar os analistas e suas instituições analíticas. Isso vale tanto para as curas que conduzem à prática analítica quanto para todas as outras, pois se a noção de passagem a analista — que não coincide com o fim da análise — não terminou de pôr em trabalho as escolas e as instituições de Psicanálise, ela não permite nenhum avanço decisivo sobre o termo da cura — sua construção —, seja ela finita ou infinita.

A história do movimento psicanalítico testemunha o peso desse assunto, alimentado por rupturas e clivagens teóricas e clínicas há mais de um século, em que se confrontaram dezenas de concepções bastante inconciliáveis entre si. Esse canteiro colossal, onipresente, lançou sombra sobre outras questões relativas à cura, seu objetivo, seu termo, notadamente do lado do ser sexuado que é o/a analisante e do que ele/ela pode portar, a título de mudanças, ao término de sua travessia analítica — tenha ele/ela se tornado analista ou não.

Assim, a questão da sexualidade do/a analisante pode ser colocada afastando-se um pouco do objetivo e do fim da cura para preferir o enjeu da cura, mais apto a manter o debate aberto do que a vê-lo se fechar sob o peso de critérios ou normas que haveria a definir e admitir. Qual é o enjeu de uma cura para um homem? Para uma mulher? Que mudanças seriam de se esperar da cura de um, da de outra? Que modificações quanto ao sexo, à sexualidade? O/a analisante é um ser sexuado? As respostas possíveis não vêm por si mesmas.

 

À luz de minha experiência analítica, por ora só encontro como acrescentar à minha definição de gênero em Psicanálise estas duas formulações: Ser um Homem como uma mulher é o enjeu de toda cura de homem. Ser uma Mulher sem Homem é o de toda cura de mulher. Como cheguei a isso?

Com o gênero, tornou-se possível levantar o sexo de onde ele nos bloqueava o acesso à Sexuação do sujeito, no entanto esclarecida por Lacan nos anos 1970. Isso não podia ser tão bem identificado e sustentado na cura anteriormente. A visão bloqueada, amplamente confortada por uma concepção significante da Sexuação, em que a maioria dos analistas quer ler o que se passa com o homem e a mulher em sua relação com a função fálica e com o gozo. Fazendo pouco caso do desprendimento da carne anatômica em relação a este ou aquele significante, a este ou aquele gozo. Lacan não soube fazer ouvir que suas fórmulas da Sexuação eram ainda mais queer do que ele parecia ser um excêntrico. Para ajudar a compreender — e isso continua sendo um impasse em nossa prática —, um lado homem e um lado mulher se mantiveram na leitura do quadro das ditas fórmulas, um pouco no mesmo modo que a formulação oficial do Complexo de Édipo, deixando como única alternativa a exceção, o minoritário que toma um caminho “inverso” à norma. Assim, gozos, fálico ou não-todo, bem como a relação com a função fálica mais do que com o Falo em si, o sujeito em análise, antes de considerar o gênero, tinha pouco acesso a uma função analítica (no seu analista) suscetível de abrir para o além identitário da identidade passada pelo crivo das identificações. Privado desse campo identitário, não definido pela Psicanálise, o/a sujeito analisante não podia fazer aparecer no horizonte de sua análise a oportunidade de uma bela escapada das identidades ligadas ao sexo ou ao gênero, onde se abre a profusão dos significantes como sinal de criações, não de diluições. Nem homem, nem mulher na Sexuação, nem mesmo como significantes, é uma base necessária para quem quer ler e se servir das fórmulas, a fim de não perder de vista, antes mesmo de se pôr ao trabalho, que os corpos sexuados pela biologia são apenas situados pela Sexuação tal como a Psicanálise pode pensá-la, o significante assegurando apenas representar o sujeito para outro significante, e não por conta da verdade ou da causa do desejo.

Pois o analista não pensa. Onde ele funciona, em sua poltrona, ele não é. Como poderia pensar a sexualidade? O impensado da sexualidade, que o analista encarna, pela Psicanálise, talvez não seja evitável, nem mesmo a ser resolvido, à vista dessas considerações. A sexualidade parece demasiado presa à realidade — à realidade em geral e à realidade psíquica em particular — para ser confiável ou útil no colóquio analítico. Tanto mais que o não-rapport sexual se mantém e, com ele, que o real do sexo não é menos impossível e impensável do que era anteriormente. Se alguns contornos desse real se confirmam, tais como o gênero sustenta sua criação, é um progresso notável, talvez suficiente atualmente: o sexo novo é um deles; identificar os movimentos dimensionais do sexo e do gênero do real ao imaginário e ao simbólico constitui outro de importância. A isso, em 2018, julguei bom acrescentar uma proposta de identificação do identitário em relação à identidade e à identificação , para não deixar em silêncio essa descoberta tornada possível pelo uso do gênero: o identitário, no real, tem algo do objeto causa do desejo, inapreensível no mundo fenomenal, assim como o é a Sexuação; de modo diferente, sexo, gênero, identidade e identificação permanecem objetos identificáveis na realidade, no corpo e no saber, tais como os encontramos e com os quais lidamos quando se trata de uma fala pública; mais nuance se impõe, pois os movimentos da cura tiram sua consistência de um tecido invisível, matéria suscetível de nutrir uma forma criada originalmente. A identidade, crise entre as crises, não tem mais, desde então, de ser defendida ou desfeita; a verdade de sua estrutura fala por ela.

 

Podemos então reconsiderar a oportunidade de uma qualificação identitária do/a analisante, do analista e da própria Psicanálise, que, de sexo ou de gênero, só poderia ser qualificada assumindo a trapaça necessária a essa produção, muito além da função do semblante que o analista deve assumir por outro lado. Tratar-se-ia de um ersatz, nem mesmo de substituição, de uma identidade como função, quando sabemos que a coisa é impossível: a identidade não é um processo, ou então é um processo impossível; a Psicanálise não é nem freudiana, nem lacaniana, nem queer, nem judaica etc.; ela era judaica para os nazistas, é freudiana para os lacanistas e lacaniana para freudianos ortodoxos; ela é queer para os sexistas — não nos esqueçamos disso.

O identitário pode, se o analista consentir, sustentar a elaboração do sexual ao não rejeitar o impossível da Sexuação como objeto. Essa operação é possível se o identitário fizer disso o lugar para o analista, se for reconhecido como esse lugar que não é uma posição subjetiva: não há interesse analítico ou terapêutico em subjetivar o lugar do trauma (fonte do identitário); outras criações se impõem a partir dele, dentre as quais toda obra visando qualificar as segregações e levantar desmentidos. Trata-se de um enjeu de fundo atualmente muito importante, na clínica do gênero em Psicanálise: o destino reservado à constatação de que a Sexuação ainda não é, para o sujeito, uma ocasião de interpelar o biológico, embora o gênero seja uma ocasião de retomada do estatuto da anatomia.

 

Pensar sobre a sexualidade exigiria, sem dúvida, para a Psicanálise ou para o analista, não levar em conta o que acabamos de expor. Uma definição poderia até ser considerada, se for o caso. Mas também seria preciso avançar algumas características, qualidades ou distinções suscetíveis de circunscrever o que a sexualidade pode ser após uma análise. E interrogar mais adiante o que deveria ou não ser a sexualidade do analista ao fim da cura, por exemplo, antes ou depois de ele/ela ter começado ou não a receber analisantes — dos quais ainda não dissemos se são ou não seres sexuados no divã.

Esse canteiro seria uma imensa falsa pista. Larga o bastante para nela se perder para sempre. A Psicanálise não tem de pensar a propósito da sexualidade. Talvez ela possa pensar a sexualidade a partir de sua própria experiência, mas nunca sem reter que o sujeito que diz não é, na superfície de seu enunciado, que pode se confundir com a face do ser — aquele que mais nos interessa em relação ao sujeito da enunciação que os significantes traem. Se não esquecermos isso, não podemos nos perder inutilmente, mesmo que se extraviar seja muitas vezes propício a fazer algumas descobertas. A sexualidade permanece um impensado para a Psicanálise; o psicanalista deve sustentar a esse respeito uma elaboração consistente, mantendo-se à distância de um posicionamento identitário que o impediria, pura e simplesmente, de funcionar como analista para um/uma outro/a.

A sexualidade deve permanecer um impensado para a Psicanálise e para os psicanalistas que, caso contrário, dizem bobagens maiores do que eles/elas. Isso garante que práticas possíveis com o impossível que é o real do sexo sejam descritas, pensadas, sustentadas tecnicamente na cura, onde devem ser criados os arranjos úteis, proveitosos, interessantes para o/a analisante em sua vida amorosa, profissional, social etc. E que essas descobertas e invenções pessoais possam interrogar as teorias da Psicanálise, contribuindo de fato para sua reinvenção, sem sucumbir à tentação de juntar-se ao espaço público, onde se exerce a autoridade, com uma queixa individual. Se a Psicanálise influi, às vezes até demais segundo alguns/algumas, sobre o pensamento contemporâneo, é a partir do divã que seus efeitos se desdobram, não a partir do discurso sustentado pelos analistas na esfera pública. Se respondemos à expectativa de pensamentos sobre a sexualidade tão exigidos pelo conjunto dos discursos ambiente, desde a liberação sexual até sua liberalização, corremos o risco de literalmente desmentir o saber ligado ao real do sexo.

O que muitos/as praticantes extenuados/as da Psicanálise já cometeram, cúmplices das discriminações e de outros assédios de que podem ser vítimas todas as pessoas oriundas de minorias diante de detentores oficiais da autoridade de um discurso. Quando Foucault elabora em torno da “função psi” em 1973, é justamente para sublinhar o uso insensato e autoritário que os “psis” fazem da realidade utilizada como padrão de normatividade; não pode ser um progresso multiplicar as especificidades das realidades plurais a levar em conta ali onde se mantém fazer advir o que era, para um sujeito, nada mais (sic). O autêntico abuso de poder dos normativos não pode ser substituído pela diversidade dos marginais.

Ao fazê-lo, nos exporíamos a ver esse saber recusado reaparecer na realidade, precisamente no imaginário, no corpo em particular, com todos os efeitos de retorno que lhe estariam ligados, como, por exemplo, um alargamento da crítica à Psicanálise sob o motivo de seu suposto conservadorismo em relação às questões sexuais, ou ainda nesses movimentos de exclusão ou de colocação da Psicanálise no banco dos réus por diversos especialistas das ciências ou da medicina. Sem dúvida, teríamos também de temer uma espécie de colagem identitária do analista, atolado no imaginário público de sua situação identitária, em que o sexo em questão encontraria de imediato uma resposta em forma de promessa, uma conivência de ordem sexual que deixa perplexo se pensarmos no que merece ser denunciado ou condenado em termos de transgressão dessa ordem.

Como compreender, por exemplo, que uma lista de analistas — e de outros/as praticantes — possa oferecer contatos com profissionais “safe e inclusivos”? As exclusões categoriais e discriminatórias sofridas por muitas pessoas oriundas de minorias sexuais junto a profissionais de saúde (médico, psicanalista etc.) não pode encontrar uma saída analítica fecunda quando promete hospitalidade pela aceitação das especificidades sexuais. Como responder melhor, de antemão, a questões que primeiro devem encontrar o espaço para serem ditas? Elas não podem sê-lo em qualquer lugar e, para isso, o boca a boca constitui a opção mais eficaz para se orientar; mas também não podem ser validadas ou garantidas pela marca do identitário promovido a selo. Mais adiante, poderíamos temer a ereção de uma lista de sexualidades compatíveis com a função analítica, já que o sexo do analista poderia ser denunciado ou reivindicado (um psi gay, um psi hétero cisgênero misógino e, no entanto, “feminista”, uma psi trans especialista exclusivamente em transições MtF etc.).

 

A especificidade psicanalítica reside em que o impossível do sexo seja mantido como visada, não como problema a resolver ou como ponto a ultrapassar (o que pode ser a visada de um discurso queer, ou de uma análise sociológica dos percursos de vida, por exemplo). Uma visada que faz o olhar se voltar para o objeto que nunca se deixa reconhecer ali: o objeto a causa do desejo, mas cuja vã busca, sessão após sessão, constitui o material decisivo de uma análise que o/a analisante pode levar até seu termo, para além dos determinantes inconscientes de seu fantasma e de seu desejo. Levar em conta a diversidade sexual, que convém prezar, não é juntar-se à subjetividade dos indivíduos, mas sim à subjetividade da época, como Lacan pôde formular, desde que não se renuncie a essa bela proposição que faz do coletivo o sujeito do individual, de 1945, onde se abre uma nova relação com a dimensão privado/público, com o sexo e o gênero como expressão do íntimo ao social e reciprocamente. Assim, nem menor nem maior, a Psicanálise tem outra coisa a fazer do que se meter no assunto que enlouquece o social, nem comentá-lo; ela deve acolher o social juntando-se a ele — aí está sua prática social —, não é confundir-se com ele nem se agitar; caso contrário, como poderia abrir-se uma vez fundida ou distorcida em um discurso que não é o seu? Ela deve também reconhecer o que se exprime desde outros campos de outro modo que não com apoio no inconsciente, que não é a hipótese de todos. Assim, ela pode destoar — ou morrer por sua sublimação teórica (em particular filosófica) ou por sua vaporização política (em particular sociológica) — bem longe da experiência clínica em curso (sempre subversiva e terrivelmente perturbadora). Pois resta que a vida escapa ao vivente, e disso somente o discurso psicanalítico declara esperar os ensinamentos, ao contrário dos discursos que tomam a sexualidade por objeto, ou daqueles que têm de tomar a sexualidade por objeto, sejam militantes ou críticos, profanos ou acadêmicos.

Paris, setembro de 2020.

VB

 

Anexos a seguir na página seguinte…

 

Definição de gênero (2013)

O gênero é o limite situado ao mesmo tempo no exterior e no interior do sexo, o litoral ou a margem do sexo capaz de revelar sua profundidade de campo. O gênero aparece sob o efeito do sexual; ele interroga os saberes inconscientes da diferença sexual, e faz vacilar as identificações até sua renovação. Assim, o gênero desfaz o sexo e cria o sexo no entre-dois de seu problema intermitente, no instante de estabilidade onde ele se experimenta.

 

Localização do gênero, sexo, sexuação (2013)

Imaginário Simbólico Real
gênero objeto processo instância impossível
Sexo instância objeto processo impossível
Sexuação processo instância objeto impossível

 

Localização do identitário, identidade, identificação (2018)

Imaginário Simbólico Real
Identidade Objeto Instância Processo impossível
Identificação Processo Objeto Instância impossível
Identitário Instância Processo Objeto impossível (objeto a)