Conversa com a identidade, o identitário e a identificação (2024)

Conversa com a identidade, o identitário e a identificação (2024)

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Conversa com a identidade, o identitário e a identificação

 

Publicado na internet, dezembro de 2024.

Para aceder às referências do texto, descarregue o artigo em PDF.

“Se em Récoltes et semailles eu me dirijo a alguém além de mim mesmo, não é a um ‘público’.” Dirijo-me a você que me lê como a uma pessoa, e a uma pessoa apenas. É àquele em você que sabe estar só, à criança, que eu gostaria de falar, e a ninguém mais. Muitas vezes a criança está longe, eu bem sei. Ela já viu de tudo, e há muito tempo. Ela se escondeu Deus sabe onde, e não é fácil, muitas vezes, chegar até ela. Juraríamos que ela está morta desde sempre, que nunca existiu — e, no entanto, tenho certeza de que ela está em algum lugar, e bem viva. »

 

1 — A identidade desgeneriza o céu

2 — Sem consentimento, o identitário

3 — Uma comunidade de solitários, longe a identificação

 

Olá a todas e todos,

Sejam bem-vindos e bem-vindas a esta terceira sessão das Conversas sobre o inconsciente, o laço social e as sexuações.

Vejo que não foi à inauguração de Notre-Dame com Donald Trump.

Hoje, conduzo a conversa sozinho. Em janeiro, receberemos nosso primeiro convidado, Bruno Perreau, cientista político e professor no MIT de Boston. Conversaremos com ele sobre intrasseccionalidade, interseccionalidade, universalismo minoritário e teoria queer.

 

***

 

Vamos ao nosso tema de hoje.

A identidade, o identitário e a identificação não constituem uma trindade exemplar no campo psicanalítico; ela não é constituída nem considerada. Na maioria das vezes, esses significantes são colocados no lugar de qualificativos uns dos outros, ou de atalhos sintomáticos que designam elementos patogénicos ou mórbidos.

Se a identificação é uma noção bastante conhecida da psicanálise, pela sua conceptualização e uso, isto não é igualmente verdadeiro para a identidade nem para o identitário. Nestas condições, o recurso habitual a estas duas noções, a propósito da prática clínica psicanalítica, parece delicado ou fatalmente aproximativo. Com efeito, permanece difícil, até impossível, sustentar e definir o que seria, por exemplo, a identidade do analista — possa ele ou ela ser qualificado como freudiano ou lacaniano ou marxista ou fetichista —, ou ainda a identidade da psicanálise, nem mesmo o que seria uma clínica identitária ou não identitária.

No entanto, percebemos facilmente, ao ouvi-los, a necessidade atual de enfrentar o que o identitário e a identidade têm a nos ensinar sobre certas dimensões da prática clínica e da elaboração teórica. Mas sem uma hipótese de definição ou de localização metapsicológica mínima, arriscaríamos especulações ideológicas sem poder tratar utilmente as questões e as práticas envolvidas com esses significantes. Vou então propor-vos, mais uma vez, um quadro, a título de hipótese.

Alguns trabalhos oriundos da experiência psicanalítica já enfrentaram a identidade e suas questões. Diversas revistas interessaram-se pela clínica da identidade, monografias foram consagradas a esta perspetiva.

Contudo, definir o que é a identidade em psicanálise não encontrou resposta suficiente até ao momento, além de que seu advento posterior ao nascimento da Psicanálise questionou desde logo a Psicanálise freudiana, sem que tenha sido possível apreender suas qualidades em benefício de uma atenção voltada para as perturbações e as alterações que ela induz no exterior dela mesma, em vez do estudo de seus distúrbios internos.

O identitário, quanto a ele, levanta imediatamente outra questão, a do seu uso político visando designar, por um lado, uma forma de reivindicação radicalizada de uma identidade nos movimentos identitários, nomeadamente aqueles que chamamos «os identitários» do lado dos militantes de extrema-direita (por exemplo, os Némésis, nestes dias, na atualidade), e por outro lado, o buraco identitário das memórias perdidas dos terroristas do jihad que seu fanatismo vem tentar reduzir.

 

Somos obrigados a explorar simultaneamente três territórios — psíquico, sociológico e político — aproveitando suas zonas de sobreposição, suas interseções.

Eis então em três pontos e três tempos de um itinerário guiado pelo objeto, que vamos seguir o rasto, de que ilustrar a utilização destes dois quadros de localização da identidade, o identitário e a identificação e aquele do género, sexo e sexuação.

 

Pela diagonal, desenha-se um caminho possível: no imaginário, a identidade e o género partilham de serem objeto, assim como a identificação e o sexo o são no simbólico, mas igualmente o identitário e a sexuação como objeto impossível no real.

 

Seguiremos o objeto em três partes, tais como podemos representar a manobra de uma cura, que não faz modelo, em três atos. Isto convidando atualidades sexuais recentes.

 

1 — Primeiro movimento — S/R — A identidade desgeneriza o céu: do suposto saber ao real inconsciente.

2 — Segundo movimento — R/I — Sem consentimento, o identitário: do inconsciente real ao imaginário especular.

3 — Terceiro movimento — I/S — Uma comunidade de solitários, longe a identificação: do imaginário não especular ao saber suposto.

 

1 — A identidade desgeneriza o céu

Seja ela nacional, sexual, cultural, política, híbrida, mestiça ou desconstruída, a identidade dissimula incansavelmente, sob sua aparência de estabilidade, seu estado verdadeiro que é o da crise. O que perdemos de vista todas as vezes em que a identidade se apresenta, cada vez que se manifesta, que a defendemos ou que a atacamos. Já não sabemos que a identidade não está separada da crise de identidade considerada, erradamente, como uma perturbação da identidade, uma turbulência temporária deixando crer no seu restabelecimento imaginário em direção à sua homogeneidade fantasiada esquecida da crise que a funda e a agita continuamente.

A identidade apareceu contudo pelo que é na nossa época, digamos desde meados do século XX, sob os traços da crise de identidade, e mais particularmente da crise adolescente, em 1968. Foi um paciente de Anna Freud que elevou a identidade ao seu estatuto de uso contemporâneo, chamava-se Erik Erikson (nada a ver com o Erikson da hipnose).

Estranha coincidência… o género, tal como o consideramos na nossa época, é ele elevado no discurso por John Money, nomeadamente, em 1955. Assim, género e identidade apareceram com o sentido que lhes atribuímos atualmente no mesmo momento da História, nos anos 1950-1960, portanto após a guerra de 1939-1945.

Identidade e género partilham desde suas emergências concomitantes, de não serem consideradas como noções psicanalíticas, enquanto testemunham contudo a apreensão de dois processos de crises subjetivas que interessam e interpelam o inconsciente: o do identitário (não designado nesse momento), e o do real do sexo (não mencionado também nesse momento). Desde então, identidade e género dançam em torno do sexo no ângulo morto da nossa visão.

John Money desenvolverá, nos anos 1950-1960 a noção de identidade de género, e a de núcleo da identidade de género deixando abertos esses significantes ao seu dinamismo, o que Robert Stoller virá pouco depois formalizar e fixar exageradamente numa conceção psicológica desenvolvimental mecânica do género amarrado ao sexo, ao ponto de ter perdido de vista sua matéria (o identitário, o real do sexo, o sexual) em benefício de sua forma (a identidade, o sexo, o género).

A identidade de género foi, e permanece desde então, o melhor meio de fixar o género num fantasma identitário: o de uma homogeneidade sexual subjetiva. O que permite aos responsáveis políticos, nestes dias, declarar seu compromisso na luta contra a Teoria do género e especialmente o apagamento da noção de identidade de género dos programas de educação sexual. Enquanto a identidade sexual será mantida.

Esta cegueira parcial, que não é apanágio dos políticos, preferindo a forma à matéria, pôde encorajar uma sobredeterminação das nossas tentativas de pensar o sexo, o género e a identidade com base no seu estado mais do que no seu processo, no campo psicanalítico. Isto é perfeitamente visível nas conceções teóricas sobre o género amarradas, elas também, ao sexo como um dado natural, pelo simples facto da coincidência entre o órgão genital e a função procriativa, o que, sabemos, não resiste à experiência do inconsciente.

Se a anatomia faz destino, não é uma questão genética nem biológica, mas psicossexual e orgânica, portanto inconsciente.

 

Para dar conta, contudo, do seu desenvolvimento, do seu processo, à escala individual pelo menos, fazer referência à sua circulação, seu cruzamento e sua mutação foi necessário àqueles e àquelas interessados pelas atualidades sexuais. Eu disse, identidade e género dançam em torno do sexo. A era da mestiçagem, da fluidez, da hibridez abriu-se desta forma desde o solo demasiado firme a amolecer das fixidades discursivas, das atribuições culturais e institucionais. Mas isto não dissipou a ambiguidade inicial, deixando uma parte das propostas de desconstruções categoriais, que proliferam há mais de vinte anos, prisioneiras do enunciado em detrimento da enunciação — e por conseguinte do inconsciente.

Não que essas tentativas tenham escolhido deliberadamente abandonar o inconsciente, mas sem voltar estritamente às coordenadas originais da identidade e do género/sexo, a saber uma crise e dois semblantes, os resultados dessas pesquisas encontram limitações definitivas, a cada etapa do seu desenvolvimento, exigindo a preferência de forma à tomada em conta da matéria. Isto não é sem relação com a prevalência performativa que encoraja esta colocação à margem do significante — abordámos isto durante nossa sessão anterior. Isto tem efeitos sobre nossos esforços teóricos. Incompatibilidades aparecem entre modelos teóricos que queremos aproximar sem poder conectá-los verdadeiramente. Isto é localizável, nomeadamente, na abordagem filosófica da psicanálise (com base em Foucault principalmente), que constitui a abordagem maioritária atualmente para elaborar a partir do género.

E não é somente o inconsciente propriamente dito que se encontra posto de lado, mas mais exatamente o real que se encontra ser negado, o real do sexo em particular que, de ser confundido com o sexo que ele não é, corrompe a referência ao género visando esclarecer esse sexo tentando um casamento entre teorias onde precisamos fazer emergir uma nova teoria desde nossa experiência e nossa prática do real, do real do sexo. Produzir filosofia sobre a psicanálise tornou-se, desde o retorno da French Theory às suas terras de origem (europeias) após sua eclosão americana, uma via sedutora para tratar a urgência das ultrapassagens conceptuais no caminho da igualdade de direitos ou da luta contra as discriminações. Mas isso falha em produzir novas conceptualizações psicanalíticas a propósito do sexo, do género, do real do sexo, da identidade, etc.

Quais são essas tentativas? Conectar o queer com o inconsciente, Foucault com Lacan, o objeto a com o biopolítico, a biosubjetividade com o sujeito do inconsciente e muitas outras ainda, que permitem suavizar, é um contributo essencial, certos ângulos demasiado abruptos da Teoria sexual da psicanálise, unívoca, embora diversa. Essas tentativas encontram um obstáculo, um gap, uma incoerência difícil de localizar ou de reduzir que se faz sentir com um perfume de fracasso: cada um e cada uma pode experimentá-lo quando se trata de resolver um problema com as teorias existentes numa visão conjunta, as do inconsciente por um lado e as da crítica sociopolítica por outro lado, ou ainda a psicanálise e os cultural studies: a cada tentativa de aproximação ou colaboração sentimos dever escolher entre duas línguas, sentimos a intraduzibilidade dos conceitos e das noções, seu afastamento geográfico enquanto saberes situados estabelecidos em continentes afastados: estamos presos na sua convergência tangível que contudo não faz comunidade. Falta um ponto de passagem a inventar, para devolver ao fracasso encontrado sua verdade etimológica que é a de ser um espólio, um tesouro. No fundo da falha do que não se conjuga dorme a matéria de uma forma por vir desconhecida de todos e todas.

 

Por exemplo, tomemos a noção de subjetividade. Largamente valorizada por Foucault, seu perímetro concorda com o de o indivíduo, enquanto com Lacan ela vale para a época que haveria de alcançar no seu horizonte. Convém então abordar com mais precisões o que Foucault sublinha e transforma da subjetividade sustentando o advento da noção de biosubjetividade que, sem dúvida, é bem aquela que merece entrar em diálogo com a psicanálise, em particular confrontá-la com as consequências da noção de sujeito do inconsciente. Se permanecermos ao nível da forma dessas noções, só podemos constatar sua incompatibilidade e desvalorizar a oportunidade de sua colocação em coerência. Ao contrário, se nos dedicamos a mobilizar sua matéria recíproca, aquela que fornece à forma que lhes conhecemos sua possibilidade de ser, abre-se um espaço onde podem ser tricotadas diversas linhas de fuga e novos tecidos, como se se tratasse de pintar quadros que seriam na verdade autênticas esculturas.

Para não sobrecarregar a sessão, indicar-vos-ei, em anexo do texto integral, um exemplo de conexão Freud-Foucault sobre o biológico.

 

***

 

Relacionada à língua, à poesia, este assunto já é bem conhecido graças à proposta ultramarina e transcontinental de Édouard Glissant. Longe de apreciar a eficácia retórica (acrescento performativa) da mestiçagem, Glissant opõe-se firmemente à identidade crioula, figura da mestiçagem e da hibridez assassina da crioulização. O essencial está nesta nuance. O processo de mestiçagem, tal como é pensado desde certas margens, se absorve o que era para produzir o que é, onde as coisas investidas nele desaparecem fundindo-se nele, não tem interesse aos olhos do poeta. A crioulização, para Glissant, não resulta nem na mistura, nem no previsível, mas no imprevisível e na ultrapassagem da mistura; as interações são consentidas, nenhum dos elementos embarcados na dança dirige nenhum dos outros, todos são surpreendidos. Aqui afasta-se a perspetiva de Aimé Césaire determinada pela produção de uma hibridez identificável que Edouard Glissant refuta no seu ato poético (ele funda aí o limite da hibridez enquanto numerosos pensadores e pensadoras da hibridez o tomam em referência de maneira abusiva, tal como faz J-L. Mélenchon num plano político por referência à crioulização da qual manifestamente nada compreendeu).

 

Esta proposta do poeta junta-se parcialmente à consistência imaginária da identidade definida na conclusão do seminário de Claude Lévi-Strauss sobre a identidade em 1975 «[…] a identidade é uma espécie de foco virtual ao qual nos é indispensável referirmo-nos para explicar um certo número de coisas, mas sem que ele tenha jamais uma existência real. […] um limite ao qual não corresponde na realidade nenhuma experiência.»

Assim pensada, a identidade é um objeto sem borda outra que imaginária, que não pode ser nem um símbolo nem um emblema. Ao contrário, se a identidade é pensada como uma coisa a defender ou combater, torna-se um fardo simbólico desprovido de seus valores imaginários. Pior, exige, frequentemente, defender suas fronteiras em vez de acarinhar seu litoral. É aqui que a identidade pode tornar-se, e, digamo-lo simplesmente, tornou-se um obstáculo à abertura da língua, aquela esperada, a epicena, a crioula, que dos ils e dos elles faz os iel·es dos quais se usa para relatar suas palavras não dizendo mais celles ou ceux que dizem, mas ciel que dizem. Iel é o singular de ciel, onde reencontramos o que se ouve na expressão crioula reunionense zot tout ouvida [zote toute] para dizer vous toutes et tous : uma outra relação com a letra onde todas são pronunciadas, sem exceção, nenhuma delas é calada, ainda que produza sons e significantes novos. Uma invenção autêntica, assinatura de uma experiência de liberdade, uma experiência poética da qual temos muito a aprender para suavizar nossas ocidentalidades medrosas.

 

2 — Sem consentimento, o identitário

O identitário é uma ferida; é a matéria negra do trauma que a identificação põe em forma por conta da identidade. Abordá-lo expõe às vertigens, em todos os azimutes, num concerto díspar de factos políticos, de movimentos societais e de resquícios históricos perturbando a realidade.

 

Segundo certas análises, Kamala Harris teria sido derrotada por causa das questões relativas à transidentidade e ao wokismo, dos quais os Republicanos prometem proteger os Estados Unidos. Democratas, o facto é comprovado, teriam renunciado a votar nela pelas mesmas razões. Os excessos do género seriam nefastos para a juventude, responsáveis pela miséria sexual dos incels ou mais amplamente da infelicidade subjetiva de homens impedidos de seduzir à maneira de outrora, impedidos de gozar à Papa.

Mas Kamala Harris não fundou seu discurso de campanha nem sobre a transidentidade nem sobre o wokismo. Ao contrário, os republicanos gastaram milhões de dólares para fazer crer nisso, em publicidades anti-woke acusando Harris de ser um cavalo de Troia a mais na tentativa fantasiada pelos reacionários de ver a melhoria das condições de vida das minorias sexuais corromper a integridade sexual de sua progenitura forçada a juntar-se às margens da sociedade e da cultura.

 

O que foi determinante, no voto dos eleitores e eleitoras no início de novembro, foi o poder de compra e o emprego contra a pobreza instrumentalizada por um combate ideológico de primeiro plano que encoraja pobres a identificarem-se com dois bilionários esperando serem salvos por eles — Trump e Musk, em Batman e Robin, uma regressão de Comics. Não podemos zombar desta exageração americana tal como podemos fazê-lo bastante frequentemente estigmatizando todos esses patetas armados até aos dentes que vomitam seu ódio diante da câmara num parque de estacionamento de Wallmart, vermelhos de raiva, na traseira de seu pick-up armados de para-choques. Não podemos zombar porque estamos na mesma situação na Europa, portanto em França particularmente.

 

A História repete-se… Há mais de vinte anos, a Teoria do género é incriminada em França, regularmente. Foi-o particularmente durante os debates parlamentares sobre o casamento aberto a todos os casais. Exceto que a Teoria do género não existe enquanto tal — não mais que o wokismo — foi inventada, com as mesmas ambições ideológicas, pelo Vaticano.

Na semana passada, um subalterno da Ministra da Educação fez profissão de fé do combate contra a Teoria do género, prometendo apagar do programa de educação sexual a noção de «identidade de género» mas conservando a de «identidade sexual». Foi repreendido, blablabla. Entretanto, a juventude do nosso país não utiliza o preservativo em mais de ⅓ e educa-se seja pela pornografia, seja pelas séries tais como Sex Education, Glee, Elite ou HeartstopperBeverly Hills nos anos 1990. Hoje, a invenção do wokismo pelos movimentos reacionários inscreve-se na mesma tradição, por paixão identitária da tradição.

 

Há vários anos, quando comecei a participar de reuniões de psicanalistas, fiquei muito surpreso ao ouvir, nessas reuniões, a fórmula “não se pode mais dizer nada”, quase sempre associada à sua falsa gêmea “não se pode falar”, exatamente como em todos os grupos que eu tivera a oportunidade de frequentar antes, em meios associativos, médico-sociais ou mesmo ativistas. Isso era muito surpreendente. Por razões estranhas, eu não esperava isso de forma alguma, não nesses lugares que eu havia idealizado.

Esses dois slogans, tão representativos da vida dos grupos ou das famílias, estão presentes em todos os espaços de comunicação, em particular nos locais de debate ou em organizações coletivas. Não os ouvimos apenas nos estúdios de televisão, como os da Cnews ou da C8, por exemplo.

Por trás dessas denúncias esconde-se, contudo, a mesma construção fantasmática ligada a um gozo perdido, de origem oral em aparência, mas que, ao olhar mais de perto, revela uma confusão de orifícios entre a boca e o ânus, fazendo passar restos de detritos por pensamentos com os quais seria preciso revestir o mundo inteiro, como se espalha merda numa parede. Um caso de resíduos que buscam dar forma a uma experiência de castração, de perda recusada de um lado para reaparecer do outro.

Encontramos também essa construção em certas queixas atuais de analisantes sobre sua vivência de impedimento e/ou de interdição de sua expressão subjetiva, especialmente a respeito do que elus sentem como sua identidade sexual ou sexuada na ação da sedução. Na maioria das vezes, trata-se de homens, mas não apenas.

Sedução, que o último livro de Isabelle Alfandary examina desde as primeiras teorizações de Freud até o Metoo, passando pelo Édipo, para nos lembrar que seduzir se baseia, etimologicamente, nos seguintes sentidos: levar para o lado, erguer, subtrair, trazer para/até si, desviar do caminho correto… isto para lembrar a centralidade da sexualidade infantil, perversa, no desenvolvimento afetivo dos seres falantes que se tornam adultos.

Persistência da sexualidade infantil reivindicada em um artigo de opinião do jornal Le Monde, em janeiro de 2018, que se abria com estas palavras: “O estupro é um crime. Mas a paquera insistente ou desajeitada não é um delito, nem a galanteria uma agressão machista.” Catherine Deneuve declarava ali: “Defendemos uma liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”. Esse texto denunciava as acusações e os impedimentos induzidos pelo movimento Metoo em relação a certos homens indevidamente incriminados, para defender, de modo geral, a sedução em seu sentido mais antigo, a saber, a exploração convencionada dos papéis e das funções sexuais de um·a pelo outro e reciprocamente, segundo códigos e normas sociais estabelecidos, cuja colocação em questão parecia ser vivida como uma ferida maior, uma destruição, uma privação, um roubo.

 

Homens, hoje, sofrem por não poder dizer ou fazer certas coisas, enquanto mulheres finalmente dizem, hoje, o que lhes foi feito ou dito. O discurso mudou. O Discurso do Mestre, orquestrador da discriminação sexual, é substituído por um Discurso Feminista que inverte a produção do mais-de-gozar em detrimento dos beneficiários históricos do Discurso do Mestre a propósito dos sexos.

 

***

 

Do meu ponto de vista, digamos, na minha prática clínica, uma interpretação foi pouco a pouco se impondo; ela é, creio, válida para essas diversas situações; eu a chamo: o fantasma do gozo roubado.

O Outro, com A maiúsculo para a ocasião, como sempre que ele é nuançado ou colocado em causa pela expressão de alteridades menos conformes à figura de autoridade própria da norma, à maioria apoiada no Pai mítico (do qual sabemos, no entanto, que não se sustenta), esse Outro deve ser salvo, reparado, reforçado, reificado ainda um pouco mais para garantir a expressão de seus sujeitos, de todas aquelas e aqueles que vivem esse impedimento que pode conduzi-los a dores e sofrimentos perfeitamente reais, aos quais elus preferem a alienação ao Mestre, o único capaz de dizer a verdade dos sexos em seu Discurso. Aquilo de que o Discurso psicanalítico nada pode dizer — sobre a verdade dos sexos —, se for preciso lembrar… Somente o Discurso do Mestre tem o poder de decretar essa verdade sobre os sexos: nele se reconhecem seus adeptos e seus escravos.

Isso é válido atualmente nas diferentes contestações dos efeitos do movimento Metoo, que dão vertigem a muitos homens e também a numerosas mulheres.

Os temores e as experiências de silenciamento ou de impedimentos denunciados devem ser tomados como figuras atualizadas da angústia de castração; não devem ser tomados ao pé da letra, a menos que se trate de avançar nas sutilezas de um diálogo psicótico que veria na paranoia uma maneira de organizar os ingredientes dessas novas configurações sexuais atuais. Para os demais, devem ser tomados onde se colocam: no lugar do gozo fantasiado como sendo roubado por um outro que não é o grande Outro, mas o irmão, a irmã, o congênere indelicado que reivindica sua parte ou sua possibilidade de ser, e sua capacidade liberada de subtrair de um·a uma parte de seu gozo, de puxá-la para si: em certo sentido, usar a sedução de uma nova maneira.

Podemos observar, de um lado, uma multidão de mulheres tomando a palavra em movimentos inicialmente singulares antes de arrastar o movimento coletivo e, de outro, homens de repente isolados de seus pares por casos judiciais, sobre os quais seria preciso dizer, assim que possível, que eles não são “homens comuns”, como fez Elisabeth Roudinesco no jornal Le Monde, ao mesmo tempo em que confortava o grupo social dos homens: essa configuração reacionária é interessante. Mulheres às centenas se reúnem para conseguir dizer e, nesse campo de batalha, haveria homens, reduzidos ao um a um como presas isoladas e vítimas dos exageros do fenômeno Metoo. Não estou em condições de avaliar a veracidade dessas situações, das quais é muito difícil obter informações sólidas. No entanto, observo a inversão contábil que se opera no tabuleiro das tomadas de palavra. Mulheres vítimas de agressões, solitárias, passam a falar e a se agrupar, enquanto homens oriundos do grupo dominante de nossa cultura são reconduzidos à sua individualidade pela ferida real ou suposta pela qual devem responder diante da sociedade.

Algumas pessoas consideram que há aí a prova de uma inversão criticável da violência. Outras preferem contar e consideram a diferença matemática das vítimas suficiente num momento de possível abalo profundo que não poderia evitar “quebrar ovos”, como lamentava a jornalista Sonia Mabrouk no canal C8 — é verdade que os ovos são frágeis. Estudos são conduzidos sobre essas questões; as denúncias (portanto, queixas) abusivas ou infundadas oscilariam entre 2 % e 9 % do total das denúncias, enquanto mais de 90 % das queixas por estupro são arquivadas, por serem insuficientemente caracterizadas. Uma questão se impõe: onde foi parar, nessa contagem, o quantum de gozo dos delitos e crimes em questão?

Essa disparidade circula, estruturada sobre uma perda importante de crimes e delitos contabilizados, de serem denunciados e arquivados por serem insuficientemente caracterizados. Uma perda e uma modelização da apreciação dos crimes e dos delitos continuam a se ilustrar em um relatório que pergunta: quantas mulheres vítimas são necessárias para fazer de um homem um agressor? A colocação em destaque de situações singulares que podem servir de exemplo de exageros perigosos que tenham causado, por exemplo, acusações ou condenações jurídicas ou sociais injustificadas, não pode ser aceita como argumento do debate principal, embora seja evidentemente necessário tratar essas consequências deletérias catastróficas.

 

Passar do “acredito em ti”, que inclui, por necessidade, um “escuto-te” prévio, ao simples “escuto-te” promovido recentemente por Caroline Fourest, pode muito bem ser motivado por toda uma série de considerações benevolentes, mas não deixa de ser uma denegação subtilmente orquestrada, pelas graças da retórica, permitindo reduzir a escuta da verdade subjetiva ao simples acolhimento da queixa individual: uma operação de nivelamento da verdade que podemos qualificar de operação de denegação na mais perfeita tradição freudiana. Que qualificarei mais adiante como recusa contra o gozo roubado, neste caso o do especialista eleito ao posto de censor visando assegurar o restabelecimento do estatuto desse outro com A maiúsculo no céu dos arcanos fantasmáticos necessários à estabilização das vacilações subjetivas combatidas incansavelmente pelo indivíduo orgulhoso de si mesmo.

 

Um gozo roubado pelo efeito de estranheza radical do fantasma a-pátride podendo despojar o fantasma heteros-patriarca da sua quota de gozo acoplada à alteridade convencionada da norma dominante. Assim, posso precisar a pequena crítica dirigida ao recurso de Butler à noção de fantasma psicossocial: o que está em jogo aqui não é o efeito de um fantasma, mas uma guerra dos fantasmas, todos sexuais, onde compensam a ausência de normas sexuais apoiando a possibilidade de ser através de normas sociais à falta de melhor. As convenções sociais, as normas são, até que o fantasma seja reconhecido pelo que é, armas de defesa contra o sexual dos outros supostamente ladrão do gozo do indivíduo, quando bastaria considerar o sujeito, e não o indivíduo, para recolocar o conjunto desses elementos numa equação mais praticável, redutível ao ponto de extrair linhas de trabalho e de progresso na análise, e talvez para além dela na sociedade.

 

No fundo desses diferentes exemplos, um elemento determinante que não é objetivo: o identitário como matéria negra do trauma do sujeito. Que leva à negação do consentimento subjetivo, aquele que permitiu aos acusados do processo de Mazan admitir sua participação em violações recusando ao mesmo tempo a intenção de violação, justificada pelo seu ponto de vista individual sobre a situação, desvinculada de todas as implicações subjetivas que puderam exceder o seu livre arbítrio que é preciso, in extremis, apoiar nas malícias do marido maquiavélico manipulador do seu comportamento, como se não se tratasse da sua adesão totalitária a esse outro com A maiúsculo do qual se fizeram sujeitos, como de um Mestre, impedindo-os de serem sujeitos eles mesmos, sujeitos do inconsciente.

 

Lutar contra as desigualdades entre mulheres e homens não é uma ambição psicanalítica, é uma necessidade democrática. Então, isso torna-se uma condição de sobrevivência dos espíritos esclarecidos, aqueles que lutam contra as discriminações, portanto woke por definição, portanto da psicanálise que não precisa de reclamar a igualdade entre mulheres e homens, mas de manter o seu compromisso histórico na luta contra as desigualdades entre mulheres e homens. Com a condição, todavia, de valorizar a psicanálise dita por mulheres analistas ao longo da História, aquelas que inspiraram aos homens analistas uma série de teorizações incontornáveis, como por exemplo a pulsão de morte com Sabina Spielrein, que explorou também, pela escrita, algumas maneiras de terminar a sua análise sem as sessões de análise (voltaremos a isso daqui a pouco).

 

Não há, contudo, um risco, apesar de tudo o que acabou de ser dito, neste momento da História das nossas sociedades (patriarcais)? Não há apesar de tudo uma vertigem?

Sim, há uma, massiva: o produto da experiência do fantasma. Esta possibilidade, não tão comummente encontrada ao longo de uma vida, exceto de ter sido forçado a isso: aperceber-se de que somos sustentados, do lado do desejo, pelo fantasma: que se apercebe no corte de um trauma, que se atravessa numa cura psicanalítica, que é abalado sem o saber em cada momento decisivo da história social, que é confundido frequentemente com a identidade que haveria que defender, etc.

 

A vertigem em questão, aquela que agita e faz tremer as identificações não deve ser tomada de ânimo leve. A cada quarto de volta fazendo passar de um discurso a outro operam-se autênticos momentos de passe, que se repetem tantas vezes quanto necessário até tornar possível colocar-se ao serviço do Discurso psicanalítico, por exemplo.

 

O trauma, os traumas quando são negados, repelidos ou evitados alimentam mecanicamente as possibilidades de efracções, de agressões, de clivagens íntimas que se ilustram neste buquê de violências emergentes vindas tratar violências seculares, numa batalha concorrencial frequentemente cegada pelos sofrimentos a tratar. O identitário alimenta as libertações como as condenações, à beira do desamparo que arrisca, isso apela à nossa vigilância, de não estar mais ligado à oportunidade e à necessidade da Ética se não apreciarmos o consentimento à altura do sujeito, preferindo-lhe o acordo do indivíduo (que a introdução do consentimento na definição judicial da violação poderia gerar). Indivíduo que faz pretexto ao discurso de prevenção evitando o sujeito, indivíduo que faz argumento para denunciar os excessos de uma travessia fantasmática atual, mais vasta e mais profunda que as ondas precedentes qualificadas antes dela de revolução ou de libertação sexual.

 

3 — Uma comunidade dos solitários, longe da identificação

 

Em julho de 1956, durante um congresso da Sociedade Francesa de Psicanálise consagrado ao estado da psicanálise e à formação dos analistas, Jacques Lacan pronuncia uma conferência que dará lugar à sua publicação num número da revista Études Philosophiques no mesmo ano, depois nos Écrits em 1966, sob o título “Situação da psicanálise e a formação do psicanalista em 1956”

O texto é virulento, mais que crítico, é zombeteiro, até insultante, mas de uma comicidade eficaz. Cada um leva a sua parte, nenhum é poupado, nem a instituição, nem a formação e ainda menos os membros dessas instituições analíticas qualificados de “Suficiências” ou de “Pequenos Sapatos”.

Este texto dá a ler várias questões que permanecem atuais. Históricas, não se atenuaram com o tempo nem com as tentativas repetidas de fazer de outra forma, alguns anos depois na sua escola, a EFP fundada em 1964, nomeadamente pela introdução da experiência da Passe a partir de 1967.

Uma dessas questões, escolhida entre outras para o nosso assunto do dia, é a da identificação. E especialmente a identificação ao eu do analista teorizada como fim da análise nessa época, na perspectiva didática que reinava nesse momento no seio da IPA. Ao contrário das convicções de Lacan, essa identificação lamentável tira a sua energia dos efeitos de identificação imaginária nas massas e nos grupos, sobre os quais remete à leitura do texto de Freud “A psicologia das massas e análise do eu” de 1921. Texto que desenvolve as maneiras pelas quais as identificações dos membros de um grupo num movimento regressivo permitem instaurar um regime libidinal centrado no líder ou no próprio grupo, a instituição cujas qualidades, valores e limites é preciso defender. Ao contrário, portanto, da emergência do desejo do sujeito que aparece onde se separa do desejo do Outro. A identidade é pensada, com Lacan e Freud, a partir da separação que desfaz a alienação. Separação incontornável para todo sujeito, alienação indispensável para todo indivíduo.

Eis o que coloca a questão da formação e da transmissão da psicanálise à contracorrente da tradição psicanalítica da época.

 

Com Lacan a psicanálise deve ser reinventada na sua possibilidade de durar, subentendido em cada cura.

Há algum tempo aparecem outras proposições, tais como recomeçar a psicanálise. Li também, há pouco, reiniciar a psicanálise. Isto em argumentos de colóquio ou de seminário, publicações nas redes sociais.

O reinventar, um a um, de Lacan, sugere que isso se produza sem ele, mas antes em cada cura para cada analisando e o seu analista.

Recomeçar a psicanálise parece convidar a repartir do ponto Freud, talvez mesmo sem ele, até no seu lugar, em certas versões. Reiniciar corta sobre a reativação de um motor que estaria apagado. Essas proposições interpelam, será preciso pensá-las.

 

Reinventar a psicanálise é uma fórmula que pesa, refere-se a uma declaração de Lacan em 1979. A citação completa é a seguinte “Tal como chego agora a pensá-lo, a psicanálise é intransmissível. É muito aborrecido. É muito aborrecido que cada psicanalista seja forçado — pois é preciso que seja forçado — a reinventar a psicanálise. Se disse em Lille que a passe me decepcionou, é por isso, pelo facto de ser preciso que cada psicanalista reinvente, a partir do que conseguiu retirar do facto de ter sido durante um tempo analisando, que cada analista reinvente a forma como a psicanálise pode durar.”

Subentendido que a psicanálise existe doravante que Freud a começou, e que na sua sequência, cada psicanalista deve inventar de novo, re-inventar, para que a psicanálise possa durar, não apenas de ser mantida, mas durável porque apoiada em invenções suplementares vindo tomar a sequência das invenções precedentes, mas sobretudo a invenção contínua das suas maneiras de durar, portanto dos meios de transmitir essas invenções novas oriundas da experiência em curso, oriundas das curas em curso.

Isto sustentado por uma decepção, da qual Lacan terá dito previamente que é um “fracasso dessa Passe”. Passe que era esperada poder esclarecer a passagem ao analista, portanto a transmissão da psicanálise. Fracasso do qual podemos lembrar-nos, para a ocasião, da sua etimologia árabe e persa combinada ao francês antigo que traz em si duas matérias de sentido: o rei está morto por um lado, e por outro lado um espólio.

 

Desde então, a experiência da Passe poderia, ainda que fosse continuada, convencer-se de explorar invenções ulteriores à morte do rei em herança. Morte do rei fazendo espólio, que, desde 1979, no momento dessa declaração, ou seja dez anos após o início da experiência da Passe na EFP, propunha, do meu ponto de vista, uma ultrapassagem suplementar do para-além do Pai da horda, do Mestre e do Título que A proposição de 1967 sobre o analista da Escola trazia em si onde Lacan esperava talvez poder tratar os efeitos dos graus dos quais a sua escola não pôde impedir-se de dar um lugar (AME). Títulos cujo peso não foi evitado aquando da fundação da Escola Freudiana de Paris e da implementação da Passe, mas que podiam, após o fracasso dito, ser deixados de lado, a fim de que a experiência da Passe se aliviasse disso e que A Transmissão (reinvenção) da Psicanálise pudesse aventurar-se em terra incognita.

 

Atualmente, quase todos os dispositivos de passe estão moribundos, parados ou em reparação. Todos interrogam a história dessa experiência desde 1967, as suas evoluções, as suas descobertas e os seus impasses. Nenhum interroga, pelo que sei, o que das atualidades sexuais veio, desde os anos 1980, colidir com essa experiência. Quando, muito frequentemente, quando testemunhos individuais podem ser recolhidos, aparece um elemento recorrente: a não-conformidade dos passantes face a uma norma erótica fantasiada por alguns fez obstáculo, e faz ainda obstáculo a deixar vir a matéria sem pressagiar a forma a ler ou traduzir. O falo imaginário é mantido em ícone onde não tem contudo rosto, mas onde muitos gostariam de poder reconhecer-se exigindo a conformidade do desejo do outro à medida do Um (com U maiúsculo), numa perspectiva, que nada tem a ver com a essência dessa proposição de 1967, por Lacan.

A alienação é frequentemente preferida à separação. É lamentável, e é perigoso.

 

Nessa experiência da Passe, fui passador, depois passante.

Uma experiência tão extraordinária quanto louca, determinante e essencial. Mas igualmente problemática e deletéria.

 

Passador, fui-o por ter sido designado passador pelo meu analista, depois contactado por um primeiro passante tendo sorteado o meu nome no chapéu dos passadores. Isso foi uma experiência deslumbrante e entusiasmante. Não direi mais, pois trata-se aqui das passes dos passantes em causa, aqueles que tive de ouvir, então boca fechada.

Passante, fui-o voluntariamente alguns anos mais tarde. Os encontros com as minhas duas passadoras foram maravilhosos, amáveis, sérios, concentrados, engraçados por vezes, determinantes em muitos pontos que a minha análise não podia tratar ou construir sem essa extensão que permite o procedimento da passe.

Depois, do lado do dispositivo, no final do trabalho do cartel de passe, uma não-nomeação que devia concluir essa passe — a minha passe —, apresentou-se de uma maneira nada brilhante, mas completamente estilhaçada.

Sobre um dos aspetos dessa conclusão de experiência, que interessava aos meus olhos a vida da escola de psicanálise em causa, escrevi um texto, intitulado Sobre a forma da nomeação.

Muito tempo após o fim dessa passe, contra toda a expectativa, enunciados vieram ainda precisar o estilhaçamento do qual tinha sido questão — o que, diga-se de passagem, nunca deveria ter-se produzido: uma vez o procedimento terminado, o leite não é suposto escapar-se da panela do dispositivo.

Mas esses excedentes jorrando como de uma fossa séptica mal mantida serviram-me contudo. Fizeram nascer nos meus pensamentos a necessidade de pensar o fantasma heteros-patriarca, e a a-sexução para ultrapassar o simples patriarcado. Isto para encarar mais seriamente as condições de uma separação que possa escrever-se, prova de um tratamento real da alienação, e não apenas um compromisso imaginário do qual se deleitam os coletivos no seio dos quais a identificação faz frequentemente sintoma mais do que sustenta a identificação ao sintoma como formulação do fim da cura, do seu termo por Lacan.

 

***

 

Durante a minha passe, escrevi muito: num diário, cartas, poemas, etc. Dei às passadoras. Um pouco, depois muito mais, dizendo-me que isto me voltaria provavelmente para criticar negativamente esse gesto de escrita passante para além da minha palavra dirigida às passadoras. Isso não faltou. A escrita é frequentemente um alvo para uma normatividade erótica aparafusada na sua angústia de castração. Basta ver a sorte reservada à escrita epicena, da qual alguns dizem que lhes fura os olhos, nada menos!

Após a minha passe, disseram-me, sem que eu tivesse pedido nada, a minha não-conformidade à norma do fantasma de alguns. E também que foi um erro ter querido fazer passar escritos. Vou deter-me um pouco sobre esse segundo elemento, a escrita.

 

A passe, não é pela escrita. Que estupidez! Para mim, há aí um fracasso, um dos mais preciosos fracassos da minha experiência da passe, que me permitiu saber um pouco mais, e mais firmemente ainda sobre o que a escrita subverte da realidade sempre enganadora. A escrita, diferentemente dos textos reconhecidos sob as penas de autoridades fálicas, permanece suspeita quando diverge dessa norma, quando se estofa não-toda fálica, é acusada de explorar os continentes negros que alimentam a angústia de castração da normatividade erótica dos aderentes ao fantasma heteros-patriarca.

Evidentemente que é falso, a passe passa também pela escrita, e já que é preciso neste meio, justificar-se de Lacan, tenho um totem de imunidade para dizer isso, pois mesmo Lacan o sugeriu ao mesmo tempo explicitamente e implicitamente.

O escrito, com Lacan, tira a sua força no limiar da compreensão quando ela fracassa, onde a letra leva para além do sentido o acesso a uma verdade demasiado real para ser dita. No seminário, O momento de concluir, em 1978, diz isto “É pela escrita que se produz o forçamento. Isso escreve-se, contudo o Real. Pois é preciso dizê-lo, como o Real apareceria se não se escrevesse? É nisso que o Real está lá. Está lá pela minha forma de o escrever. A escrita é um artifício. O Real só aparece portanto por um artifício, um artifício ligado ao facto de haver fala e mesmo dizer. E o dizer concerne o que se chama a verdade. É por isso que digo que a verdade não se pode dizê-la.”

E mais diretamente ainda “Nessa história da passe, sou levado… já que a passe fui eu que a — como se diz — produzi, produzi na minha Escola…na esperança de saber o que podia surgir no que se chama o espírito, o espírito de um analisando para se constituir, quero dizer receber pessoas que vêm pedir-lhe uma análise. Isso poderia talvez fazer-se por escrito. Sugeri-o a alguém, que aliás estava mais que de acordo. Passar por escrito, isso tem uma hipótese de estar um pouco mais perto do que se pode atingir do Real do que o que se faz atualmente, já que tentei sugerir à minha Escola que passadores podiam ser nomeados por alguns.

 

Aprendi a escrever, por necessidade, por causa da minha cura depois do meu desejo. Antes disso, não sabia escrever, à força de tentar escrever como um Homem. A análise ofereceu-me, obrigou-me também, a aproximar-me mais de perto do que suspeitava nas minhas primeiras leituras de Freud: a bissexualidade psíquica é uma promessa maior que a própria vida. Bissexualidade psíquica que é o inconsciente, que abre à escrita dos homens cor de mulheres, entre os quais aqueles que têm de tornar-se analista.

 

Gostaria de concluir esta terceira sessão por três referências a Pascal Quignard, Sabina Spielrein e Hélène Cixous que souberam aproveitar e dar conta, pela escrita, de uma solidariedade nem fraterna nem sororal, nem individual nem coletiva, apenas subjetiva, fundada numa verdade não sobrecarregada do peso do ser, assim como exige a via da escrita.

Esses três escreveram coisas que fazem passar algo que não é sem ligação com aquilo de que se trata na Passe, do Sujeito do inconsciente e a sua relação com a História, com o Vivente e com o a/Outro.

 

Sabina Spielrein, em 1909, escreve a sua tese de medicina, que será o primeiro escrito clínico sobre um caso de psicose, e a primeira tese versando sobre a psicanálise como objeto e método. Texto que lhe permite concluir, sozinha, mas não completamente sozinha, a sua análise não terminada com Carl Jung, dirigindo a Freud elementos do seu trabalho de clínica por correspondência escrita (sic). Pede a Freud que tome o relevo da sua cura com Jung, Freud propõe-lhe que lhe escreva para testemunhar. Ela dedica-se a isso, por textos que testemunham, com efeito, a descoberta de um saber novo, aqui o da pulsão de morte – que Freud desenvolverá depois dela – que lhe permitiu separar-se, desidentificar-se do seu analista e da análise construindo o termo da sua cura com e para além do seu fim, finito e infinito, como um movimento, como um poema: uma obra passada.

Pascal Quignard, no seu pequeno livro intitulado Sobre a ideia de uma comunidade dos solitários e em As Sombras errantes , expõe a solidão inerente à condição humana, encontra a via do seu retiro, aquele do silêncio abrindo à partilha e ao lugar de uma comunidade do laço fundada na ausência, no desvio, no exterior, sem comunhão nem aglomeração condenando à fusão.

Hélène Cixous, no seu célebre texto, que se diz feminista, O Riso da Medusa, de 1975, escreve isto “Ela chega a nova história, não é um sonho, mas ultrapassa a imaginação masculina, e com razão vai privá-los da sua ortopedia conceptual, começa por arruinar a sua máquina de lê-las”. Acrescenta: “Impossível definir uma prática feminina da escrita […] pois nunca se poderá teorizar essa prática, encerrá-la, codificá-la, o que não significa que ela não exista. Mas excederá sempre o discurso que rege o sistema falocentrado ela terá lugar noutro lugar que não nos territórios subordinados à dominação filosófica-teórica. Não se deixará pensar senão pelos sujeitos quebradores dos automatismos, os corredores de bordas que nenhuma autoridade subjuga jamais.”

 

Há aí uma perspectiva, um caminho de escrita.

 

Assim portanto,

A identidade é crioula

O identitário é violação

A identificação é um sintoma

 

Obrigado por me terem escutado,

VB.