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Conversa com o lugar vazio
Publicado na internet, setembro de 2024.
Extrato do capítulo 7 — “A Noite da amante”, Fale ao meu corpo
1 — O gênero… de novo?!
2 — Atualidades do gênero na psicanálise
3 — Noção ou conceito?
4 — Meu grau zero do gênero
5 — A conversa como método
6 — Como chegamos a este ponto?
7 — Na Goutte d’or
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Olá a todas e todos,
Sejam bem-vindos a esta primeira sessão, que tem como título “Conversa com o lugar vazio”.
Para esta sessão de introdução, assumo a tarefa de lhes apresentar, se não o projeto, ao menos o seu início, começando imediatamente pelo esclarecimento de suas coordenadas recentes no plano histórico, bem como uma retomada parcial de elementos abordados anteriormente que devem, no entanto, ser considerados à luz dos últimos quinze anos transcorridos desde que comecei a expor algumas proposições sobre as atualidades sexuais e a psicanálise.
Peço desculpas antecipadamente por ter de iniciar este ciclo com uma apresentação um pouco densa. Mas ela é necessária no estado atual; é preciso acionar a bomba, partir de uma declaração de intenções que lhes entrego hoje. Vamos discuti-la. É um começo e, como acontece com o presunto ou com o pão, cada um tem, sobre este ponto, suas próprias fixações libidinais: quer se goste ou se odeie, lida-se com isso de qualquer maneira.
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Extrato do capítulo 7 — “A Noite da amante”, Fale ao meu corpo.
“Nada mais se sustenta, portanto, neste instante e para sempre, mas será que se sustentava, algo se sustentava antes?
O que resta que possa dizer o que sou de agora em diante?
Eu, Marc, não o sei, tão fortemente quanto talvez nunca o soube, sem o saber.
O que me acontece é inédito. A grande transformação, uma inversão. O direito pelo avesso. Resta apenas deixar que este pedaço de corpo se recupere também. Reatar o interior, retricotar o de dentro.
Como é duro. Nada jamais foi tão difícil quanto isto em minha vida, ou então não consigo me lembrar. Estou ficando louco, louco de amor, doente de sexo.
Amar em todas as nuances do amor, especialmente aquelas aliviadas do império genital ao estilo liberal. Será uma pista séria ou um desejo puritano suspeito? Não, que belo programa: do sexo curar o amor.
Sem raiz, sem sexo estável, sem identidade esmagadora, sem caricatura erótica, sem patriarcado…”
1 — O gênero… de novo?!
Tomar a palavra sob o título Psicanálise & Atualidades sexuais deveria, no mínimo, parecer um tanto antiquado ou, ao menos, anacrônico. Mas não é o caso. Este título, estranhamente, causa o efeito de uma abertura, desperta nosso interesse. Esta constatação é estranha, especialmente para a psicanálise: do que mais ela poderia falar, se não das atualidades sexuais? Como é possível que sejamos interpelados pela atualidade sexual como uma questão específica, quando ela constitui o cotidiano inevitável da experiência psicanalítica em curso?
É, no entanto, exatamente isso que nos reúne hoje. E foi isso mesmo que motivou, pouco a pouco, o início deste projeto. Tratar o fato de que as atualidades sexuais parecem insuficientemente consideradas pela psicanálise desde o século passado. Tentar saber até que ponto isso é verdade e, sobretudo, de que maneiras isso é verdade. Devemos extrair desta constatação um grande número de interrogações. Uma, ao menos, que reúne quase todas… Como chegamos a este ponto?
É a questão de fundo, uma dupla questão epistemológica e crítica que nos convoca a esta dupla exigência, fundamental para a experiência psicanalítica: a experiência do saber, com e contra o saber da experiência. Porque não é concebível caminhar neste domínio sem confirmar, primeiramente, uma espécie de princípio para todas as tentativas sinceras de elaboração no campo psicanalítico, portanto a nossa hoje e mais tarde: pensar o que a psicanálise nos faz e o que podemos fazer com ela só é possível ao levar muito a sério o risco e a necessidade de inventar o saber contra o saber — de reinventar. O que pensamos saber aqui só tem valor sob a única condição de supô-lo como saber até prova em contrário ou confirmação, de submetê-lo ao questionamento, portanto, conduzir uma inquisição tendo como guia e referência não Deus, mas o que falar quer dizer e o que o falar produz.
Para avançar neste caminho, pois é um fato consumado que o estamos conseguindo pouco a pouco, podemos ainda aproveitar uma ocasião inaudita que, por já não ser tão recente, não deixa de ser original à sua maneira, suficientemente perturbadora para ser fecunda, moderna se isso protege do classicismo ou, ainda, simplesmente conectada aos efeitos da fala neste início de século XXI. Designemo-la por um primeiro significante “gênero”, cuja irresistível ascensão não para de ser escrita há mais de quarenta anos. O gênero e suas questões, as questões de gênero como diz a expressão corrente, das quais é preciso cuidar e desconfiar, para não nos deixarmos contaminar tão simplesmente por este clichê, o mais nefasto neste campo de pesquisas e práticas que faz, tolamente, do gênero um correspondente do sexo, assim como todos podemos constatar a fragilidade das proposições e dos modos de tratamento dessas questões no campo da psicanálise (e além dela) há cerca de vinte anos, todas ou quase todas fixadas em uma abordagem sujeita a certos discursos sociológicos, políticos e também filosóficos tingidos por uma concepção binária sintomática da natureza e da cultura.
Pois existem linhas de fratura entre os discursos, devemos levá-las em conta sem nos contentarmos com simples divisões entre eles. Suas propriedades são mais complexas do que isso. O que conhecemos muito bem, por exemplo, entre o Discurso psicanalítico e o Discurso da Universidade, definitivamente compatíveis, portanto, inconciliáveis.
Apresentei, logo de início, o significante “gênero”. Ele é talvez, desde já, o mais antigo em nossa atualidade sexual, começa a datar. É um paradoxo: para quem quer captar a atualidade, isso envelhece de imediato nossa iniciativa. Já velha, ela o é, para além da retórica que permite esta justaposição, ao discurso, de significantes novos, alguns dos quais se elevam ao lugar de mestre muito antes de termos tido a oportunidade de nos dar conta disso. Então, recuperemos este atraso evocando, sem demora, outros dois significantes que passaram há pouco ao lugar de mestres também, a meu ver: “trans” e “elu” que, diferentemente do significante “gênero”, são também significantes novos à sua maneira.
Uma primeira perspectiva conceitual se abre aqui pelo simples fato de ajustar esses três significantes em um mesmo parágrafo. Aproveitemos isso desde esta introdução, e teremos tempo para retornar a isso em detalhes. O gênero será a forma, no imaginário, que pode nos ensinar enfim o que ainda não sabemos do sexo, o trans será a perspectiva que dá acesso ao simbólico tratado pelo real, o real do inconsciente bissexual recusado, significado e salvo pelo elu. E já fazemos um pouco de topologia: gênero, trans, elu/imaginário, simbólico, real. Pequena observação: quando digo o inconsciente bissexual, cometo voluntariamente um erro, o inconsciente não é bissexual, elu é a bissexualidade, teremos a oportunidade de retornar a isso detalhando o que é a binaridade, subentendida sexual, infelizmente tornada uma religião do duplo onde ela se impõe, no entanto, como sendo uma prática da relatividade (sob a condição de desprendê-la do fantasma).
Se isso parece obscuro ou complexo, não tenhamos medo. Não é tão complicado quanto parece. É apenas o efeito que nos causa avançar na pista de saberes em suspenso. Não há nada excessivamente difícil no que se segue, apenas complexões que convidam nossa exigência, que podemos desembaraçar sob a condição de assumir e suportar o questionamento do que acreditamos saber para nos contentarmos em pensá-lo. O que já é muito, e frequentemente impossível. O que é também a única maneira de progredir e seguir a letra no que se diz e se ouve, sem seguir ao pé da letra o que acreditamos saber.
Assim, e somente assim, abordaremos territórios férteis, nas franjas da invenção e da reinvenção onde o finito e o infinito da psicanálise em experiência mantêm, sob a condição de fornecer o esforço necessário, as aberturas proveitosas ao exame minucioso de nossos estados de alma a propósito do que chamamos genericamente sexualidades.
2 — Atualidades do gênero na psicanálise
Não se tratará de amar a psicanálise, nem mesmo as atualidades sexuais. Mas de amar a oportunidade de pensar de uma maneira eficaz para nos desestabilizar em proveito de algumas invenções proveitosas à nossa progressão nestes continentes negros da psicanálise, cujo primeiro foi dito por Freud — “A vida sexual da mulher adulta é ainda um continente negro para a psicologia” em “A questão da análise leiga”, em 1926 —, logo acompanhado, mesmo que ainda não sejam suficientemente considerados no campo psicanalítico, 1 — pelos ecos socioculturais do gênero, 2 — depois pelo transtorno simbólico de trans, completados por 3 — o impossível de penetrar histórico da bissexualidade psíquica constitutiva (significado de elu).
De uma maneira geral, até o presente, as contribuições para a clínica do gênero na psicanálise — como designo este campo — foram por vezes qualificadas como proposições “obscuras” ou “incompreensíveis”, na maioria das vezes relegadas ao nível de fenômenos “insignificantes” ou “wokistas” — o cúmulo é que estes fenômenos são o próprio lugar, atual, do aparecimento de significantes novos e que, por esse motivo, seu afastamento torna-se sintomático para esta prática da escuta.
Eu que trabalho nisso, como se diz. Digamos, que tento seguir este fio que percebi, por conta própria, há muito tempo em minha leitura de A Causa dos adolescentes, de Françoise Dolto, posso atestar e qualificar de outra forma esta suposta complexidade insuportável para alguns, peremptória para outros. Quero qualificá-la de outra forma, colocando-a em perspectiva direta com o destino reservado às questões de gênero e àquelas e àqueles que as carregam, ou que tentaram carregá-las nas casas de psicanálise em particular, sejam elas sociedades, associações ou escolas — o que é igualmente verdade na Universidade. Pois o tratamento institucional destas questões e dos clínicos que a elas se dedicaram, tratamento simplificador, portanto fascista, já deu lugar a um bom número de eventos que nos permitem, desde já, formular uma constatação. Nas casas de psicanálise, onde estas questões de atualidades sexuais foram levantadas, postas em trabalho ou combatidas, em cada ocasião foram muito rapidamente esmagadas por uma concepção sociológica e filosófica do indivíduo e do sujeito. O que, em todas as vezes, permitiu tornar acessório o seu objeto e afastar, direta e indiretamente, aquelas e aqueles que assumiam o risco de sua palavra a esse respeito. Ao tomar o gênero como uma expressão cultural e social (ou pública) do sexo íntimo e privado, não havia outras possibilidades senão insistir nesses impasses. Além disso, isto é o resultado de uma inversão manifesta, em seu contrário, de uma confusão latente entre o íntimo e o público, confusão situada na fonte do totalitarismo sexual por falta de poder enfrentar o horror do saber sobre a verdade sexual e seus limites.
Vários nós foram encontrados muito rapidamente quando foram abordadas, sob a pressão da atualidade, as chamadas questões de gênero no campo psicanalítico. Nós nos cérebros primeiro, depois nós nas teorias para, finalmente, negligenciar o terreno onde isso acontece e do qual conhecemos o poder de desatamento, queiramos ou não: a prática clínica.
Assim, as dificuldades de compreensão ou de adequação ideológica e política, inerentes a todas as vontades de abordar estas questões, devem ser identificadas como sendo alimentadas principalmente pelos efeitos institucionais, muito mais do que imputáveis à própria natureza destas questões. Se sentimos que não compreendemos nada, não é tanto pela dificuldade do objeto, mas pela deformação instituída de nossa escuta e de nosso pensamento, ambos excessivamente alinhados com a ortodoxia conceitual e as posturas intelectuais atuais no campo da psicanálise.
Sempre, e isso ainda dura, a questão foi apenas aproximar as atualidades sexuais das coisas já conhecidas, supostamente, das sexualidades antes delas, para compará-las, avaliá-las. Em cada ocasião, tratou-se de reduzir o desconhecido ao supostamente conhecido. Em cada oportunidade, tentou-se sublinhar a infecundidade destas questões confirmando não apenas o valor das teorizações adquiridas, mas sim o seu emprego reificado por aquelas e aqueles que nomeio os porta-falos da psicanálise: encontram-se aí autênticos reacionários, asseclas burocráticos, mas também figuras pós-modernas igualmente problemáticas quando maquiam o oportunismo intelectual como abertura de espírito. Elas têm, no entanto, um ponto comum indiscutível, e é por isso que as reconhecemos: não propuseram nada de novo, nem na leitura, nem na escrita da teoria psicanalítica; nem uma crítica séria nem uma proposição original viram a luz nesta vertente, com o que é mais frequentemente reivindicado como slogans: “nada de novo sob o sol” versus “o que conta é apenas tirar o pó de Freud”. O meio psicanalítico sofre um atraso consequente em relação à vida, enquanto se debate entre herança, transmissão impossível e carreiras.
Reinventar certamente não é recomeçar do zero. Mas exige, no entanto, partir do nada, o que não é nada, o que não é zero. Um nada como grau zero para não nos perdermos em um vazio sem bordas, para inscrever um ponto de partida que tenha algumas chances de ter continuidade. O grau zero do gênero é o seu estatuto de objeto no imaginário, tal como se encontra no primeiro tempo de sua eficácia, para cada um, analisantes ou analistas ou quem quer que seja.
Para esclarecer este encontro com o gênero que todos vivemos, com a noção de gênero e não com o conceito de gênero que devemos manter sob mira, devo lhes contar o caminho que foi o meu a esse respeito. Qual foi meu grau zero do gênero, muito antes de tê-lo escolhido como objeto de trabalho? Mas antes de responder, uma precisão…
3 — Noção ou conceito?
Digo noção e não conceito, é uma nuance importante. Pois nada permite nem deve justificar, até hoje, pretender ou acreditar que, a respeito do gênero, qualquer coisa tenha sido dita que valha como conclusão por quem quer que seja. Em primeiro lugar por uma razão temporal, e é por isso que podemos designar por atualidades estas questões sexuais, e por outro lado por precaução ética e política visando manter o esforço crítico que não deve faltar às nossas tentativas de pensar estas questões. Ninguém sabe o que seria ou poderia ser o perímetro fechado daquilo a que o gênero nos dá acesso a respeito do sexo e do sexual. Exceto se consentirmos com uma abordagem, com uma concepção reduzida do gênero tal como certas perspectivas psicológicas, sociológicas, políticas ou filosóficas, e até psicanalíticas, fazem uso e ilustram em demasiadas proposições recentes problemáticas. A este título, teremos a oportunidade de explorar diferentes sintomatologias reacionárias, desde suas expressões em certos discursos ou tomadas de posição frequentemente pouco exigentes, quase sistematicamente orientadas atualmente contra o significante “trans” e seus afluentes, cujo exemplo mais sensível é a questão das “crianças trans”. Psicanalistas (frequentemente com presença na mídia e publicados ), mas também, por exemplo, fêmealistas, travam verdadeiros combates ideológicos, guerras em nome do feminismo ou da ética clínica que nos servirão para captar o nível de comprometimento contemporâneo com a tentação totalitária, doentes por quererem defender necessidades políticas contra as do Sujeito. Refiro-me com isso a um certo número de militantes, analistas, profissionais da profissão, “especialistas na solução de problemas ”, para usar a expressão de Neil Sheehan, o jornalista americano na origem da publicação dos Pentagon Papers em 1971, expressão retomada e estendida por Hannah Arendt em seguida.
Por que esta ponte direta com esta teórica da política (do político)? Por uma razão tão simples quanto o inimigo que se trata de combater, a saber, o fantasma travestido de reivindicações políticas a serviço de um totalitarismo. Aqui, o do patriarcado sacralizado no lugar dos efeitos insuportáveis da relação sexual que não existe. Fantasma patriarcal que dá voz à perícia dos especialistas em Pai e outra triangulação edípica, ou ainda em diferença dos sexos apoiados em sua ideia muito pessoal do que é necessário, mesmo que isso signifique desmentir os fatos, mesmo que signifique desmentir violentamente a contingência viva das realidades psíquicas, por um lado, e corromper, por outro, a necessária consideração minuciosa do lugar do outro, do a/Outro do sexual. Estes especialistas, tão certos de saber o que é necessário, alimentam uma política do sexual esquecida de um fato revelado por Freud e reformulado por Lacan na expressão bem conhecida agora do seminário A Lógica do Fantasma “O inconsciente é a política” (1966-1967). Como se lhes fosse insuportável ou impossível reconhecer o inconsciente real e a força de convocação do Gozo — digamos, talvez, a economia pulsional no sentido amplo —, estes especialistas na solução de problemas adeptos da teoria dos dominós nos permitem, no entanto, precisar o território e a natureza deste inimigo totalitário que deve ser combatido, e do qual é preciso, pouco a pouco, conseguir precisar o nome. Já que ele se faz conhecer especialmente hoje, no campo social transformado em campo de batalha, não apenas como expressão da guerra dos sexos, nas violências sexuais e sexistas, e mais certamente ainda na ilustração sintomática das tensões insustentáveis entre o indivíduo e o sujeito. Eu disse fantasma patriarcal. É preciso detalhar isso…
A título pessoal, por muito tempo considerei e pensei que o patriarcado era o problema. O próprio significante “patriarcado” é muito cômodo para designá-lo como inimigo. Um excesso de Pai se faz ouvir entre estas consoantes, e suas vogais fazem ressoar gritos sufocados. O suspeito faz um excelente culpado. Mas é um pouco raso parar nesta facilidade. É preciso ir mais longe, é preciso detalhar, pois o patriarcado é também o nome de uma Cultura, quer gostemos dela ou não, e que, por esse motivo, merece ser analisado como um autêntico Mal-estar na Cultura, e não apenas um mal-estar da cultura. Isto para destacar com interesse o que deste patriarcado nos informa sobre elementos estruturais que merecem, após exame, ser separados dele. Teremos a oportunidade de trabalhar uma paradoxal defesa do patriarcado para reduzi-lo a pele de onça : sua natureza verdadeira e sua autêntica função. Então, será tratada uma das perguntas de Marc: “O patriarcado não convém, o que mais?”.
Portanto, o patriarcado pode ser o nome do inimigo, do problema, mas é um pouco raso. Então propus fantasma patriarcal, para não simplesmente, por exemplo, designar a heterossexualidade branca cisgênero como sendo o nome do problema, embora esta noção seja fecunda para destacar, a partir das interseções categoriais, nuances essenciais nos processos de discriminação e de violência. Outro nome para este inimigo deve ser proposto, para, ao mesmo tempo, tomar consciência de que a palavra inimigo já foi pronunciada várias vezes — semântica guerreira. De que guerra se trata? Da guerra dos sexos, tal como podemos justificar e compreender a emergência necessária dos feminismos? Teremos de responder a estas perguntas. Pois há sim uma guerra. Há vítimas, feridos e mortos a ouvir, reparar, honrar. Há também culpados e responsáveis a levar à Justiça.
Outro nome, portanto, mas qual? Como expressar que, para além do inimigo, devemos nos interessar pelo seu objeto psíquico, pelo processo subjetivo em causa, pelas formações do inconsciente longe dos tribunais e das opiniões. Gostaria de propor isto, para cercar este mecanismo psíquico central, o fantasma patriarcal heterossexual onde fantasma pode ser entendido em sua definição psicanalítica, patriarcal como referência à Cultura, e heterossexual enquanto testemunha social onde a heterossexualidade não é aqui uma orientação sexual, mas um regime político. Em inglês, a formulação parece mais simples, poderíamos dizer The Straight Fantasy of Patriarchy, o que nos permite reformular esta expressão em português como O fantasma hétero do patriarcado. Já que não é o inimigo — o fantasma não é um inimigo —, é o objeto central de nossa atenção, nosso ponto de partida e perspectiva, para avançar em nossas questões de atualidades sexuais para além de todas as nuances de orientações sexuais, de identidades de sexo ou de gênero, todas concernidas por este fantasma hétero do patriarcado, tal como ele vem sustentar a marcha do desejo para todos os sujeitos, em resposta às consequências irredutíveis do que evocamos anteriormente como os efeitos da relação sexual que não existe em sua expressão lacaniana, ou ainda os efeitos do Complexo de Édipo em sua expressão freudiana. Quando pudermos aprofundar isto, teremos a oportunidade de tratar este fato clínico de que a orientação sexual não tem sentido, embora isso queira dizer algo por outro lado, socialmente, politicamente ou mesmo culturalmente e sexualmente. Dou também outro nome a este fantasma: o fantasma héteros-patriarca; ele nos interessará ulteriormente para abordar outro fantasma que o descompleta, o fantasma a-pátrida, abrindo ele mesmo para a compreensão de outra sexuação que não a sexuação lacaniana (uma sexuação do terceiro excluído, aquela dita da exclusiva necessária), a a-sexuação (uma sexuação do terceiro incluído, aquela dita da inclusiva necessária), abrindo ela mesma para novos discursos que completam, por sua vez, os discursos destacados por Lacan (discursos). Lacan destacou os discursos da histérica, discurso da universidade, discurso do mestre, discurso psicanalítico. Veremos pouco a pouco como a a-sexuação abre um acesso a quatro outros discursos: o discurso identitário, o discurso trans, o discurso feminista e o discurso ecologista.
4 — Meu grau zero do gênero
Retorno ao meu grau zero do gênero. Como encontrei o gênero?
Como todo mundo, primeiro sem me dar conta. E isso durou vários anos. Nasci em 1976; se o feminismo era muito ativo nesse período, as questões de identidades sexuais ou de identidade de gênero não tinham o lugar no discurso ambiente que conhecemos hoje. Nesse período, a fala de certos psicanalistas era difundida na mídia, notadamente a de Françoise Dolto nas ondas da Europe 1 em 1969 (SOS psicanalista!, onde ela intervinha ao vivo sob o pseudônimo de Doutor X), e sobretudo na France Inter entre 1976 e 1978 (um programa diário apresentado por Jacques Pradel, Quando a criança aparece, onde desta vez ela respondia às cartas dos ouvintes). Podemos também citar o programa de televisão Psy Show em 1984-1985, do qual Serge Leclaire participava.
Cito Françoise Dolto porque ela marca minha entrada na psicanálise. Não durante meus dois primeiros anos de vida, mesmo que minha mãe ouvisse o programa no rádio, mas sobretudo na adolescência, quando nossa assinatura familiar da France-Loisirs nos fez receber uma seleção de obras, entre as quais A causa dos adolescentes. Eu tinha doze anos, era meu primeiro livro de psicanálise, e meu primeiro pensamento consciente sobre o inconsciente a convite de minha querida Françoise D. Depois, por todo um tempo de minha vida de jovem adulto, este livro desapareceu de minhas caixas. Nunca consegui reencontrá-lo nem no porão nem no sótão, a ponto de duvidar de que algum dia o tivesse tido em mãos, como meus pais também pensavam. Trinta anos depois, por ocasião de minha experiência do passe como passante, e por uma série de acasos de que a vida guarda o segredo, o livro chegou em uma manhã, quando eu ia me encontrar com uma de minhas passadoras para uma de nossas últimas entrevistas. No caminho para o café onde tínhamos encontro, desembalei o pacote e parei subitamente na calçada ao folhear o livro. Era meu exemplar do livro de Françoise Dolto, minha causa de adolescente havia retornado a mim a convite do passe. Eu o tinha em mãos e lia nas margens das páginas minhas anotações da época que, de repente, haviam retornado à minha memória. Lembrava-me de ter escrito coisas precisas sobre a fala, a importância da fala, e sublinhado frases capitais, que reencontrava ao folhear, entre as quais esta que nunca esquecerei: “Os mal-partidos, a psicanálise pode salvá-los”.
Qual a relação com o gênero, vocês me perguntarão? Só descobri recentemente, ao folhear novamente este livro e minhas anotações. Uma delas esclareceu meu grau zero do gênero. No capítulo dedicado às identidades adolescentes, Dolto fala da escolha das roupas, do estilo adotado para dar forma a uma identidade em construção. Na margem, eu havia escrito “ look sexual” e “gênero”; era minha tradução dos parágrafos em questão. Ao relê-lo, há algumas semanas, enquanto tento teorizar estas questões há muito tempo com o esquecimento deste encontro histórico pessoal, compreendi que o gênero havia me capturado precisamente naquele momento. Uma concepção de gênero que não me convém hoje, excessivamente sobrecarregada pelas questões de aparências e de realidade, excessivamente cega aos processos psíquicos inconscientes que me interessaram desde então a respeito do gênero. Mas é o meu grau zero do gênero, onde ele me apareceu primeiro como objeto no imaginário, portanto, na realidade e no corpo.
Mas precisei, na introdução, que nenhuma perícia pessoal do gênero merece ser considerada de imediato como sendo válida para outros. O que não quer dizer que nenhuma experiência do gênero seja verdadeira; todas o são e é desta incomensurável experiência que se deve levar em conta e cuidar. É desta maneira que me pus a trabalhar sobre estas questões em uma perspectiva de pesquisa, a partir do gênero como objeto no imaginário — e não como objeto imaginário. No imaginário, portanto, onde o gênero objeto ativa um transtorno ao aparecer, na realidade e no corpo, a respeito do sexo assim despertado de seu sono enganador que faz passar o sexo por um dado, para se ter certeza. O aparecimento do gênero, seu encontro, é uma experiência perturbadora, desestabilizadora, instantânea ou duradoura, que podemos qualificar como experiência queer, ou como experiência do inquietante (Unheimliche). Onde o gênero aparece em uma dimensão, o sexo vacila em outra dimensão. Onde o gênero perturba, no imaginário quando se apresenta, o sexo treme no simbólico; é a primeira etapa para captá-lo, reconhecê-lo. Em uma segunda etapa, quando o gênero processo simbólico aceita o desafio do transtorno do sexo no simbólico, ele permite a recriação do sexo no imaginário onde ele é instância, instância de crença sustentada pelas representações que lhe são ligadas, podendo atingir uma espécie de confirmação, de unidade ou de coerência.
Repito. Por exemplo, encontro um ser humano que não sei ler, nem situar na paisagem sexual, é uma experiência queer : não sei quem é, nem o que é, nem o que faz. Então, minha intranquilidade inconsciente, em relação ao meu lugar e à minha função na paisagem sexual (do meu sexo, digamos) demasiado incertos, exige que algo venha responder a esse transtorno que pode ser insuportável para mim, exige que o aparelho psíquico trabalhe para circunscrevê-lo, para reduzi-lo. Pois, a partir do gênero encontrado no outro, que reativa a incerteza do meu sexo, abre-se uma interrogação/interpelação inconsciente, que reabre a criação/recriação do sexo que se seguirá, em diferentes etapas. Resumamos estas duas primeiras etapas: o gênero se apresenta (objeto ao imaginário), o sexo é perturbado (processo ao simbólico), o gênero é posto em sentido (processo ao simbólico), o que restabelece a representação do sexo (instância ao imaginário). Nesta fase, uma tranquilização pode surgir e ser suficiente, ou não: no instante de isolar um ponto do espaço, o sexo, por exemplo, retoma vida na lógica ordinária da realidade fenomenal, libertado por um momento dos percalços que o estruturam nos bastidores. Propus uma definição possível de gênero e sexo em psicanálise: «o gênero é o limite situado tanto fora quanto dentro do sexo, o litoral ou a margem do sexo capaz de revelar sua profundidade de campo. O gênero aparece sob o efeito do sexual; ele questiona os saberes inconscientes da diferença sexual e faz vacilar as identificações até sua renovação. Assim, o gênero desfaz o sexo e cria o sexo no entre-dois de seu transtorno intermitente, no instante de estabilidade em que se experimenta.» Nada mais, tal é o Gheschlescht (termo empregado por Freud, que pode ser traduzido por gênero-de-sexo). Isso é acessível com a condição de apreender o sexo e o gênero como duas incógnitas de uma equação irredutível, como dois semblantes de um real que há muito tempo designamos, erroneamente, pela única palavra «sexo» (o sexo, os dois sexos), demasiado contentes por ter encontrado ali o meio a priori incontestável para classificar a massa humana, até lhe dar um lugar no título de alguns colóquios que por vezes se intitulam de uma das variações possíveis do tipo «o sexo e seus semblantes», exceto que sexo é um semblante. Percebe-se imediatamente o erro comum que faz do sexo um dado. É bem isso que a clínica do gênero nos ensina, a partir do transtorno do gênero que revela o sexo daquilo que ele não é, no que continuamos a acreditar, no entanto, em nome do indivíduo, e abre a possibilidade de criar o novo sexo que melhor convém ao sujeito do inconsciente. Por hoje, não iremos mais longe na exploração das outras etapas nem do background que é a sexuação neste assunto.
Como eu construí isso? A partir do gênero objeto ao imaginário, para avançar em meus trabalhos preparatórios para a elaboração de uma tese de doutorado, segui esse fio para conhecer as qualidades do gênero nos outros registros que são o real e o simbólico. Precisava de um método, uma receita não muito distante da experiência psicanalítica e de sua prática. Não sabendo absolutamente como proceder, muito desanimado pelos textos disponíveis sobre as leituras da sexuação lacaniana ou o primado do falo, o penisneid, etc., construí minhas próprias ferramentas, que esperava serem psicanalíticas. Organizei um duplo tridente, freudiano e lacaniano, esperando assim obter resultados suscetíveis de serem submetidos à questão, passados pelo crivo dos fatos e dos pensamentos, suscetíveis de serem verificados por outros praticantes da análise. Partindo de um estado do gênero, o de o objeto, em um registro, o imaginário, propus-me a extrapolar para os outros dois registros, o real e o simbólico, dois outros estados, os do processo e da instância. Eu tinha, portanto, meus dois tridentes: objeto, processo, instância e imaginário, simbólico, real. Uma ferramenta mais improvisada do que inventada, já que é um gloubiboulga à minha maneira do que eu havia compreendido da psicanálise naquele momento. Você o encontrará em uma primeira pequena tabela em anexo. No entanto, foi muito rapidamente eficaz e bastante sólido do ponto de vista metodológico. O que fez um dos membros do júri da tese em questão, mais do que conservador, depois de finalmente ler este trabalho, a contragosto, fazer esta declaração de amor em forma de ameaça ao chegar ao local da defesa: «Finalmente, li o seu trabalho, o pior é que funciona, e ainda por cima é freudiano».
5 — A conversa como método
Conto-lhes este momento de trabalho não para dizer que acredito ter conseguido apreender algo, isso ainda precisa ser provado e não cabe a mim fazê-lo, mas para implementar um dos objetivos destas conversas, a saber, o da expressão da prática clínica psicanalítica. E isso sem a necessidade de recorrer a casos clínicos ou vinhetas, que decidi proibir totalmente, para mim e para todos os convidados. Tenho a convicção de que dizer a prática clínica psicanalítica não pode passar por ilustrações, mas unicamente por expressões diretas da experiência, produções literárias ou encenações matemáticas. Mesmo que isso seja muito delicado e exija esforços muito consideráveis que nem sempre temos a oportunidade de fornecer. Estaremos concentrados neste risco da tomada da palavra, por parte daqueles e daquelas que tomarão a palavra nas conversas ou nas discussões, o risco da palavra, com todas as precauções necessárias, sem esquecer a parte daqueles e daquelas que se calarão. Estas conversas serão a ocasião de apresentações de praticantes da psicanálise, ou seja, analistas e/ou analisandos que todos praticam a psicanálise — haverá também escritores e escritoras, e cantores e cantoras ou matemáticos e matemáticas que compartilham a experiência da palavra dirigida.
No imediato, a conversa será aquela que mantenho com o lugar vazio, que não é uma ausência nem um desaparecimento, mas que, no final, se revela ser aquele com quem, com o que todos os praticantes da psicanálise, numa poltrona ou num divã, se encontram a experimentar o lugar, e o laço do que convém enfrentar para esclarecer esse a/Outro do sexual que o analista e o analisando se encontram a ser alternadamente. Então, o lugar vazio é uma multidão. Conversas que servirão de suporte às nossas discussões para decifrar, ouvir, interrogar uma série de proposições, descobertas e questionamentos. Isso para desfazê-los, prolongá-los, mantê-los abertos.
O que evoco agora coincide, sem querer, com a questão da formação do analista. Esta questão ocupou amplamente todas as trocas prévias ao início deste projeto. É uma questão central, à qual as conversas desejadas não escapam. Eu mesmo frequentei durante cerca de doze anos uma escola de psicanálise, a Escola de Psicanálise Sigmund Freud (EpSF), na qual me inscrevi depois de ter penosamente tentado abordar outros lugares onde um espaço era possível sem ser condenado a permanecer um aluno ou um ex-estudante para sempre em relação a supostos mestres ou supostos professores. Nesta escola, fiz a parte mais importante da minha formação, aquela onde pude, onde tive que, não sem dificuldades, experimentar e desvendar o impossível do grupo em sua dimensão mais grosseira, mas também a tentação totalitária inerente a toda instituição que nada vem tratar, apenas regular o suficiente para que o trabalho de uns e de outros continue. Posso testemunhar que, no entanto, se leva a cabo o próprio caminho, de um mar a inventar com o barco, como escreve Nazim Hikmet: um barco que pode inventar outros mares e percorrer os arquipélagos do Todo-Mundo. Isso não impede acidentes, não evita partidas, demissões, conflitos por vezes muito violentos e graves danos subjetivos. Isso reforça e confirma, se fosse necessário, que a única formação do analista existente são as formações do inconsciente , aquelas que se deixam conhecer na cura, nada mais que a cura, em intensão e em extensão. Então, tendo começado a receber analisandos há cerca de dezesseis anos, encontro-me agora obrigado pelas curas a abrir algo, um braço de mar. Não tenho certeza de que conseguirei, nem de que isso tenha alguma chance de sucesso. Mas não é isso que é importante para começar. O que importa é o que decidiu, a saber, minha experiência da psicanálise hoje que me convida a responder, a partir das curas, ao além das curas. Tudo isso apoiado e determinado por um desafio principal: elaborar pouco a pouco um complemento à Teoria Sexual, reinventar um pedaço de psicanálise a partir de um objeto que a perturba mais do que qualquer outro há muito tempo, que podemos designar por «gênero», mas que pode e deve também ser designado por «trans» e «elu» agora, teremos a oportunidade de explorar essas variações significantes.
6 — Como chegamos até aqui?
Retorno, para avançar em direção a uma conclusão temporária desta introdução, à questão inicial. Como chegamos até aqui? A ser interpelados pela possibilidade de considerar a Psicanálise e as Atualidades Sexuais, este paradoxo?
Esta questão expressa a incontornável dimensão política inscrita no cerne do questionamento em psicanálise — a propósito do inconsciente, do fato sexual e do desejo —, que nunca deixa de prosseguir um diálogo com o mundo em que se exerce.
Vários elementos se distinguem (2):
1 — Todas as semelhanças com nossa situação política nacional (e mundial) não seriam fortuitas, mas sim a expressão de um sintoma que nos interessará intensamente: o da contaminação do campo social pelos saberes sobre o sexual oriundos da experiência psicanalítica, cujos efeitos fora da cura, mas não sem transferência, confirmam sua incidência direta e indireta no laço social, na possibilidade de fazer sociedade ou coletivo, e na economia libidinal em geral.
2 — A agonia lancinante e incontestável do patriarcado, agonia, no entanto, combatida por alguns homens e mulheres mal-castrados, desfere golpes cada vez mais violentos em todos e todas à medida que a palavra e seus efeitos ganham o terreno que lhes era negado. A ponto de a batalha travada, batalha pela vida e pelo saber, parecer perdida desde sempre. O que não é de estranhar, para um sistema fundado na exclusão necessária, no assassinato do pai e na refeição totêmica que impõe sua recorrência, e sua manutenção custe o que custar, embora mórbida.
Isso nos convida a apreciar nossa situação presente, a de nossa cultura, a da psicanálise em experiência, à luz das atualidades sexuais. Insisto nesta perspectiva: são as atualidades sexuais que podem ensinar a psicanálise e não o inverso, a menos que nos mantenhamos ainda, deliberada e cegamente, em um movimento diagnóstico, acadêmico e ideológico. Pois o que se apresenta na experiência merece ser acolhido, ouvido à altura de suas qualidades inauditas, ainda desconhecidas, cujos contornos, dinâmicas, capacidades criativas e potência crítica contra o simbólico o real vem tratar onde toma forma em nossas realidades, onde os semblantes atuam: entre real e imaginário.
Na poltrona, no divã, escutamos, dizemos o que ainda não foi pensado a ponto de já ter produzido novas elaborações. É um fato analítico, é a própria essência da psicanálise. É, no entanto, contestado, pela insistência da atitude soberba dos conhecimentos teóricos de nossas bibliotecas bem abastecidas, esmagando incansavelmente os saberes em vias de aparecer. O que condena, há já quarenta anos, a psicanálise ao entorpecimento burguês de que sofre em seu centro, onde sua dimensão institucional (a das sociedades científicas, das escolas de psicanálise ou das universidades) a encoraja a recusar um saber ainda inconsciente, cuja exclusão, principalmente pelas graças do desmentido, obstrui como um fecaloma as vias de escoamento necessárias aos nossos humores contemporâneos.
Nossa situação atual é violentamente paradoxal. Durante todo esse tempo em que a psicanálise amplamente ignorou, e continua a ignorar, o que lhe é dirigido, na intimidade da cura ou na praça pública, construções e elaborações incontornáveis foram produzidas em grande parte fora dela, a ponto de ela poder continuar, hoje, a acolher o que não sabe acolher senão como particularismos, fenômenos menores ou minoritários. Sua colaboração histórica com o Universal maior custa-lhe sua capacidade de despertar e de maravilhar-se diante das metamorfoses infinitas da libido. Ela se tornou culpada de um conservadorismo patogênico, permitindo, àqueles e àquelas que qualifico de Portadores-de-Falo, manter particularmente à distância de sua obra as questões ditas de gênero, as contribuições fecundas da transpectiva (perspectiva trans) e a grandiosa abertura da escrita epicena onde a língua continua a se criar.
Em outras palavras, alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época, este convite de Lacan aos analistas de toda sorte, que não teve o efeito esperado. Visava, no entanto, evitar que os candidatos à função de analista se prendessem à de simples «intérpretes na discórdia das linguagens». Desde então, as novas expressões identitárias puderam encorajar uma reificação enganosa das subjetividades, por não conseguirem manter aberto o campo do sujeito do inconsciente neste início do século XXI. Isso resultou, a fórceps, em perspectivas filosóficas e existenciais pouco úteis ao processo analítico, desde então fantasiado de ser queer, ou feminista, ou interseccional a ponto de confundir seu fora e seu dentro, de abandonar a hipótese do inconsciente e a lei do significante. O inconsciente é politicamente incorreto; tentar dourar sua imagem com modismos não tem outro sentido senão o da evasão, ou do amálgama contraproducente fundado na confusão do identitário e da identidade principalmente. Esta crítica, que formulo aqui, figura este paradoxo do qual é preciso sofrer o suficiente para aprender algo e, ao mesmo tempo, extrair os manejos na cura dos efeitos de significantes das atualidades sexuais: se o discurso ambiente exige precisar ao extremo as qualidades identitárias de todos aqueles e aquelas que se expressam, assim como suas próprias proposições, devemos permanecer mais do que vigilantes aos particularismos assim encorajados sem temer afiliar-nos ao Universal maior que totaliza o diverso. E se devemos, evidentemente, combater a psicanálise como uma campanha em todos os lugares onde ela recusa os efeitos dos feminismos, do queer ou da interseccionalidade, devemos fazê-lo sem concessões. O identitário é uma matéria, uma matéria escura. A identidade nada sabe disso, não pode saber, mas pode ser acreditada como uma estrela, enquanto é mais uma supernova.
Outro elemento do paradoxo em questão está irremediavelmente agregado à questão da transmissão da psicanálise. Transmissão impossível, exigindo a reinvenção perpétua, merecendo ser mantida à margem das questões de herança e filiação no meio psicanalítico. Pois a formação do psicanalista vê-se privada de poder apreciar as deformações do psicanalista, largamente abandonadas às curas individuais sem eco suficiente na elaboração comum dos sintomas compartilhados que os praticantes, analisandos e/ou analistas, podem, no entanto, colocar em trabalho, submeter à questão para não recuar diante do que se apresenta, já que essas deformações, essas transformações, essas transsexuações são as vias de formação do analista onde a transmissão se mantém impossível, portanto praticável.
A rua, a juventude, as diversas comunidades que constituem nossa sociedade tomaram, em relação ao meio psicanalítico, uma vantagem muito importante, difícil de reduzir. Eles sabem mais do que nós, e, no entanto, de uma maneira que merece ser ampliada pela perspectiva analítica. Isso será muito visível nas conversas futuras, quando for preciso retomar argumentos e elaborações, no entanto, disponíveis há várias décadas, das quais todas ou quase todas continuam a produzir ainda hoje um surpreendente efeito de surpresa sobre um discurso, o discurso psicanalítico, e sobre os analistas, dos quais, no entanto, tínhamos o direito de esperar, considerando as curas que não pararam de avançar com seu tempo, um pouco mais de modernidade sem a necessidade de que ela seja apontada como um valor agregado ou uma característica específica, mas simplesmente a marca de seu tempo.
Retomaremos, portanto, ponto a ponto, o estudo de numerosos elementos e de não menos numerosas noções que não têm mais segredos para a nova geração de nossa época, para grande parte dos analisandos e analisandas que vêm falar nas sessões. Onde, muitas vezes, somos interpelados pelo que não é mais uma questão para muitos de nossos contemporâneos.
Esta constatação não é desanimadora, pois relatar tudo o que lhe escapa no dito prepara o terreno para a escuta analítica e seu ato. Se para muitos analisandos e analisandas as questões ditas de gênero, o trans e o pronome neutro não são mais um mistério, é, por um lado, uma boa ocasião para o analista alcançar em seu horizonte a subjetividade que se apresenta à sua escuta, o que, por outro lado, abre a possibilidade para quem fala de ouvir seu dizer pelo eco inconsciente que seu analista se disporá a suportar para sustentar a promessa e o processo da cura.
7 — Na Goutte d’Or
Por que conversar em um lavadouro, na Goutte d’Or?…
Estamos no Lavoir Moderne Parisien, local histórico de palavras trocadas em torno de uma tarefa doméstica: lavar a roupa. Um assunto de mulheres, como o das conversas que só foram identificadas como tal graças ao seu exercício mundano nos salões de outrora, deixados à autonomia relativa das mulheres consideradas aptas a discutir coisas não estatais, não primordiais para a realeza e outros regimes políticos: a saber, o sentimento, a aparência, a música ou as artes de menor alcance, a decência e a formação das mulheres da sociedade.
Durante vários anos, escrevi em meu canto e divulguei marginalmente textos na internet, também produzi alguns livros de forma autônoma no plano editorial. Mas o exercício do bilhete solitário, como a masturbação, convida à abertura, ao compartilhamento para arriscar sua aposta erótica em outras atividades sexuais. Informei-me sobre os costumes do mundo. Redescobri o que eram as conversas de outrora.
Sendo minha sala muito pequena para convidar uma pequena multidão, e não dominando os códigos da boa sociedade, o bairro de La Goutte d’Or impôs-se como meu endereço. Vivo e trabalho lá agora. Então é aqui que nos encontraremos, esperando que estas ocasiões sejam tão agradáveis quanto a degustação de uma conversa, esta pequena torta tornada célebre, no século XVIII, por Mme d’Epinay, que sabia receber, cuja receita foi divulgada por ela em um texto intitulado As conversas de Emilie. Açúcar, farinha de amêndoas, ovos e um pouco de técnica. Não há mais muitos lugares em Paris onde é possível degustá-la, os endereços permanecem confidenciais. Não lhes darei esses endereços, pois tentaremos reinventar a receita.
Aqui as conversas não serão utopias políticas, nem mundanidades antiquadas que fazem os cenários batidos das ficções cinematográficas e dos simulacros de pensamentos aos quais somos confrontados onde o intelectualismo preside a tudo.
Haverá, portanto, nestas conversas, coisas muito complicadas, pois a vida psíquica é muito complicada. Ela exige estar em trabalho, como se diz o tempo todo. Não há problema. Não é necessário compreender para aproveitar o sentido, e melhor ainda os deslocamentos que a escuta atenta de uma proposta pode gerar no corpo, na cabeça de todos nós reunidos provisoriamente para este exercício, para este trabalho, pois é um trabalho coletivo. Quer se escute, quer se diga ou se cale, é um trabalho que faremos aqui. Apoiar-nos-emos na lógica e em seus impasses ou superações, na intuição em favor de alguns desvios. Torceremos a língua, escutaremos o espaço, tentaremos escritas sobre coisas que forçam a transgredir as regras gramaticais e fazem reflorescer nossas ortografias adormecidas.
Então, como proceder, quer se seja já iniciado nestas questões ou completamente ingênuo? Para sustentar este esforço de abertura e aprofundamento das questões ditas «de gênero», que prefiro enunciar como uma Clínica do gênero psicanálise, escrevi um pequeno livro sob o título Fale com meu corpo, que é de perto e de longe uma versão mais literária de minha primeira obra intitulada O sexo reinventado pelo gênero, cujo texto é um pouco complexo, disseram-me. Além disso, Fale com meu corpo, que não é um romance propriamente dito, nem mesmo literatura segundo os cânones em vigor, pode ajudar a entrar e progredir em uma série, bastante vasta, de questionamentos que o personagem principal, Marc, nos permite seguir com ele. É deste texto que surgem as treze questões que servirão de pretexto para as conversas, para tentar respondê-las. Digo bem, tentar.
Concluo com estas treze questões, que não serão enumeradas como um rosário, mas tratadas de forma misturada, umas com as outras, ao longo de nossos desvios:
- E por que eu devo me sexuar como você?
- Como o sexo chega à mente?
- Que sexualidade para quem sabe o sexual?
- A orientação sexual tem um sentido?
- O patriarcado não serve, o que mais?
- Ser mãe como um homem?
- Um/a trans psicanalista?
- A que responde a excitação sexual?
- Qual a definição psicanalítica de gênero, de sexo?
- Uma sexuação fora do Falo?
- Metoo & Psicanálise?
- Não há relação sexual, e quanto a uma relação de gênero?
- Que nova perversão?
Da próxima vez, falarei sob o título «Meu divã tremeu», em referência e homenagem a James Baldwin, para falar um pouco de amor. Para trilhar entre duas eróticas: Do sexo curar o amor, Fazer o amor do sexo. Abandonaremos a lição inaugural de hoje para um outro formato, mais poético, espero.
Até lá, quando puderem reouvir esta primeira sessão, poderão, para além da discussão que teremos agora, enviar (por e-mail) as vossas questões e comentários. Os nossos próximos encontros talvez lhes respondam, de uma forma ou de outra. Obrigado por me terem escutado.
Vincent Bourseul
Fim
Anexos
Definição psicanalítica de gênero (2013) : o gênero é o limite situado tanto fora quanto dentro do sexo, o litoral ou a margem do sexo capaz de revelar sua profundidade de campo. O gênero aparece sob o efeito do sexual; ele questiona os saberes inconscientes da diferença sexual e faz vacilar as identificações até sua renovação. Assim, o gênero desfaz o sexo e cria o sexo no entre-dois de seu transtorno intermitente, no instante de estabilidade em que se experimenta.
Construção da tabela:
| Imaginário (1) | Simbólico (2) | Real (5) | |
| Gênero (1) | objeto (1) | processo (3) | instância impossível (7) |
| Sexo (2) | instância (4) | objeto (2) | processo impossível (5) |
| Sexuação (6) | processo (7) | instância (7) | objeto impossível (6) |