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O corpo faz a língua, a fala faz o corpo: uma política do corpo em Freud
Champ Psy, 2013/2, n° 64, p. 123-137.
Que política do corpo podemos admitir na psicanálise e como formulá-la? Apoiemo-nos em um primeiro saber que a experiência psicanalítica nos ensina: não falamos de outro lugar que não seja o do corpo, a partir do corpo e a respeito dele. Mas de qual corpo se trata? Do corpo anatômico, do corpo biológico, das carnes? Do corpo tal como o representamos, da imagem do corpo?… A psicanálise nos ensina que é o corpo que mostra e que é mostrado, em cuja superfície se escrevem pedaços de verdade daquele que ele designa permanentemente. Mas é também o corpo que fala, e não apenas pela via do sintoma que faz Freud tomar o caminho do inconsciente que a fala traz consigo, fala que a linguagem sustenta e que o corpo carrega. Continuamos, depois dele, a trilhar esse caminho; aprendemos com ele que o corpo fala dos órgãos, dos traços incorporados, ele é sempre determinado. Assim pensada, a linguagem nos reconduz, portanto, ao corpo, e é a fala que nos mostra, em contrapartida, o que ela faz com ele, com esse corpo de onde a linguagem emerge. Que perspectiva se abre aqui? Aquela em que encontramos apoio para pensar o corpo, o sujeito, o desejo, o inconsciente; nela situamos aquilo sobre o qual o psicanalista se sustenta; nela reconhecemos convicções, fundamentos, atos e verdades. Mas consegue-se dizer tudo quando se fala? Pode a linguagem ser pensada como agente de verdade daquilo que ela designa por suas práticas, como nomeação ou ainda como regulação? O ato de fala age para além do mero discurso, sobre o sujeito, sobre o corpo? A psicanálise não é uma sexologia, tampouco uma linguística; ela não delimitou uma teoria única da linguagem que seja comum aos diferentes territórios de seu próprio campo e, no entanto, a linguagem a ocupa e a preocupa, nem que seja apenas por considerar que é pela fala, portanto na linguagem, que ela encontra o caminho do inconsciente. A psicanálise tem uma teoria da linguagem, e até mesmo várias perspectivas distintas (Freud, Lacan, Green) mais ou menos compatíveis entre si. Cada uma é portadora de uma concepção do sujeito, da ética, da política que lhe é própria. Dessa teoria da linguagem não emergiria uma espécie de política do corpo, que daria forma aos seus efeitos? Qual seria para a psicanálise, para Freud em particular, uma política do corpo que resta deduzir de suas proposições sobre a linguagem?
Sobre a linguagem, teríamos apenas pontos de vista, como diz Saussure (Saussure F., 1916), que nunca deixam de ter consequências éticas ou políticas; a partir desses pontos de vista, o corpo se vê atingido, especialmente se admitirmos que as visões políticas e éticas tendem a formular o corpo, a restringi-lo ou a controlá-lo (Foucault M., 1979). Henri Meschonnic prolonga essa análise quando desenvolve, a partir da crítica do signo, o seguinte: “[…] é preciso pensar a linguagem contra o signo como representação, e mostrar que o signo não é senão uma representação da linguagem. Pois o signo tomado pela natureza e pela verdade da linguagem impede de reconhecê-la como uma representação. Um ponto de vista. […]. O signo impede de pensar o contínuo, a interação linguagem-poema-ética-política. O signo é descontínuo. É teólogo-essencialista. Não permite pensar nem o sujeito nem o poema.” (Meschonnic H., 2012, p. 717). É uma proposição eminentemente política e ética, que Meschonnic reformula ainda aqui, que inscreve firmemente a relação da linguagem e do corpo como questões sociais e políticas: “A modernização confundida com a modernidade [a modernidade como presença ao presente e esse próprio reconhecimento] também trouxe suas essencializações para a crise. Podemos vê-la nos termos de um renovo do conflito entre realismo e nominalismo. A industrialização da morte e sua massificação pelos totalitarismos também corroeram o dizer ao proibir o dizer. Estamos apenas começando a pensar sobre isso. […] o que chamo de contínuo, através e contra o descontínuo [o signo]. É o contínuo entre a linguagem e o corpo, entre a linguagem e a ética, a linguagem e o político. O descontínuo conserva sua relevância empírica. Mas nos limites, que são os dos conceitos da língua, os conceitos do signo. Mas o descontínuo do signo se apresenta como a natureza inteira e única da linguagem, coextensiva às suas práticas e ao seu pensamento, enquanto é apenas uma representação parcial, que impede, por sua pretensa universalidade, de compreender tudo o que fazemos da linguagem e o que ela faz de nós.” (Meshonnic H., 2012, p. 722). Não há, portanto, uma teoria da linguagem que não induza ou não reflita uma concepção do sujeito e das possibilidades de sua existência, de seu reconhecimento psíquico e corporal. O que sabemos então do que consideramos como uma concepção da linguagem em Freud, para tentar extrair e formular o que seria uma possível política do corpo para a psicanálise?
FREUD E O “APARELHO DE LINGUAGEM”
Quando se considera a linguagem em Freud, emergem duas noções principais: a representação de palavra (Wortvorstel- lungen) e a representação de coisa (Dingvorstellungen). Sua utilização por Freud aparece em Contribuição à concepção das afasias: um estudo crítico (Freud S., 1891). É sua primeira obra dedicada aos transtornos ligados à fala; nela, Freud apresenta suas ideias sobre o “aparelho de linguagem” e algumas de suas concepções sobre as palavras que ele retomará e refinará ao longo do tempo. A articulação do corpo com a fala está plenamente presente desde suas primeiras formulações:
“Não podemos ter nenhuma sensação sem associá-la imediatamente”, onde compreendemos que o corpo impele à fala. “[…] à palavra corresponde um processo associativo complicado onde os elementos de origem visual, acústica e cinestésica entram em ligação uns com os outros. A palavra adquire, no entanto, seu significado pela ligação com a ‘representação de objeto’ […]. A própria representação de objeto é, por outro lado, um complexo associativo constituído pelas representações mais heterogêneas, visuais, acústicas, táteis, cinestésicas e outras.” (Freud S., 1891). Sem perder de vista que o que traduzimos por “palavra” está presente no texto freudiano sob o significante “wort”, que abrange a palavra e a fala no uso alemão. E que Freud faz um uso alternativo em seus diferentes textos entre Wort e Wortvorstellung, entre palavra e representação de palavra. As representações de coisa e as representações de palavra são pensadas por Freud como pertencentes, as primeiras, ao inconsciente e, as outras, ao sistema pré-consciente, na visão da primeira tópica; sendo a ligação da representação de palavra com a representação de coisa também do pré-consciente e podendo ser ativada desde o inconsciente até a consciência; elas se distinguem uma da outra como pertencentes aos processos primários ou aos processos secundários. Mas, como vimos, a distinção entre as duas não pode ser pensada em analogia ao significante/significado de Saussure, pois, além da marca sonora da palavra, Freud associa também, de forma mais ampla que Saussure, determinantes que se inscrevem no psiquismo, como a imagem visual feita da imagem da leitura da palavra e da imagem de sua escrita, ou ainda a imagem do movimento da palavra em sua pronúncia que solicita os órgãos da fonação. Os pontos de vista, assim qualificados por Saussure, são, portanto, rapidamente muito diferentes, díspares, heterogêneos.
Nesse mesmo texto, ele prossegue: “[…] a ligação entre a representação de palavra e a representação de objeto é a parte mais exaurível da operação da linguagem, seu ponto fraco, de certa forma.” (Freud S., 1891). O que convida a pensar nas potenciais transformações e reformulações psíquicas que, aliás, Freud espera e anuncia: “Atualmente, começamos igualmente a compreender a ‘magia’ da palavra. As palavras são, de fato, os instrumentos mais importantes da influência que uma pessoa busca exercer sobre outra; as palavras são bons meios para provocar modificações psíquicas naquele a quem se dirigem, e é por isso que não há mais nada de enigmático na afirmação segundo a qual a magia da palavra pode afastar fenômenos mórbidos, em particular aqueles que têm, eles próprios, seu fundamento em estados psíquicos.” (Freud S., 1891). Percebemos aí como sua concepção em termos de “representação de” já é portadora de suas intuições e de suas intenções terapêuticas. De fato, uma ligação opera entre as representações no psiquismo daquilo que as coisas e as palavras realizam sobre o indivíduo e sobre o seu corpo. É interessante observar que a coisa em si mesma e a palavra em si mesma conservam uma existência relativa fora de suas respectivas representações no psiquismo. Aqui ganha forma a possibilidade de um confronto com os modelos posteriores ou mais recentes que serão propostos pela linguística de Saussure, e depois a reformulação por Lacan do significante saussuriano quando a palavra como tal, nomeadamente, é tomada por objeto, o que Freud encontra também nas crianças e nos esquizofrênicos, dos quais diz que às vezes “tratam” as palavras como “objetos”. Indo mais além, a concepção de Freud não é aqui absolutamente incompatível com um certo aspecto da dimensão performativa do discurso, no sentido do poder de agir das palavras (Austin
- L., 1962). Encontramos em nossa leitura uma ilustração aqui: “A reação do sujeito que sofre algum dano só tem efeito realmente ‘catártico’ quando é verdadeiramente adequada, como na vingança. Mas o ser humano encontra na linguagem um equivalente do ato, equivalente graças ao qual o afeto pode ser ‘abreagido’ quase da mesma forma. Em outros casos, são as próprias palavras que constituem o reflexo adequado, por exemplo, as queixas, a revelação de um segredo pesado (confissão). Quando esse tipo de reação pelo ato, pela palavra e, nos casos mais leves, pelas lágrimas, não se produz, a lembrança do evento conserva todo o seu valor afetivo.” (Freud S., Breuer J., 1893). Freud expõe que a fala e as palavras são suscetíveis de realizar a liquidação, a abreação do afeto ligado a um evento, tal como realiza a ação concreta de liquidação em atos. Podemos então pensar que o que passa pela linguagem vale pelo que passa pelo corpo, em termos de liquidação afetiva, pelo menos. Esse regime de equivalência proposto por Freud deixa entrever, além de uma alavanca terapêutica, a representação do corpo pela linguagem, quando a fala transporta o afeto e contribui para o seu tratamento psíquico: a linguagem como campo de inscrição e de extensão do corporal.
Em A questão da análise leiga, Freud retoma esse poder de agir das palavras, distinguindo: “Muito justo, seria um procedimento de encantamento se a ação fosse mais pronta. O encantamento tem como atributo essencial a rapidez, para não dizer a subitaneidade do sucesso. Mas os tratamentos analíticos exigem meses, e até anos; um encantamento tão lento perde seu caráter maravilhoso. Não desprezemos, aliás, a palavra. Ela é, afinal, um instrumento poderoso, é o meio pelo qual revelamos uns aos outros nossos sentimentos, a via pela qual exercemos influência sobre o outro. Palavras podem fazer um bem indizível e infligir feridas terríveis. Certamente, no princípio de tudo era o ato, a palavra veio depois; foi, sob muitos aspectos, um progresso cultural o momento em que o ato se moderou tornando-se palavra. Mas, afinal, a palavra na origem era um encantamento, uma ação mágica, e ela conservou ainda muito de sua antiga força.” (Freud S., 1926). A força da palavra está, portanto, ligada à própria origem da língua, à necessidade de que as palavras tomem o lugar dos atos e que, ao fazê-lo, tenham sido investidas de sua força de agir. Freud reconhece nos sonhos — na língua do sonho — as virtudes das línguas primitivas que não conhecem nem a negação nem a contradição. “É assim que, por exemplo, a negação nunca é especialmente indicada na língua do sonho. Os opostos aparecem um no lugar do outro no conteúdo do sonho e são apresentados pelo mesmo elemento. Ou, como também se pode dizer: na língua do sonho os conceitos ainda são ambivalentes, unem em si significados opostos, como ocorreu, segundo as hipóteses dos linguistas, nas raízes mais antigas das línguas históricas. Outro caráter marcante da nossa língua do sonho é a utilização muito frequente de símbolos que permitem, em certa medida, uma tradução do conteúdo do sonho, independentemente das associações individuais.” (Freud S., 1913). Apoiando-se nas descobertas linguísticas da época sobre as línguas primitivas, Freud desenvolve e confirma sua concepção analógica com a língua dos sonhos e a necessidade de, para interpretá-los, seguir muito de perto a evolução da língua através do tempo, de retornar às línguas originárias. Quais foram as primeiras palavras? A que origens podemos vinculá-las? Freud faz referência às teses que atribuem às palavras primeiras das primeiras línguas origens sexuais. Em A interpretação dos sonhos, a respeito dos símbolos, Freud expõe: “Em toda uma série de casos, o elemento comum ao símbolo e à coisa propriamente dita em cujo lugar este último aparece é patente, em outros é oculto; a escolha do símbolo aparece então como enigmática. São justamente esses casos que não deixarão de lançar uma luz sobre o sentido último da relação simbólica; eles
remetem ao fato de que esta é genética. O que hoje está ligado simbolicamente estava provavelmente, em tempos originários, reunido por uma identidade conceitual e linguística.” (Freud S., 1900). Ele acrescenta aqui, em 1925, uma nota de rodapé: “[O Dr. Hans Sperber, que publicou um texto intitulado ‘Sobre a influência dos fatores sexuais no surgimento e desenvolvimento da linguagem’, na revista Imago, n° 1, em 1912] estima que a totalidade das palavras originárias designavam coisas sexuais e que elas perderam em seguida esse significado sexual ao passarem para outras coisas e atividades, que foram comparadas às coisas e atividades sexuais.”.
Isso nos convida a questionar se as palavras, conservando sua capacidade de ação, como testemunhas de ações passadas, trazem em si a marca e a competência dos atos sexuais aos quais estão ligadas originariamente, de modo que o poder de agir das palavras teria substituído a liquidação na ação concreta? Não que se deva ver nisso uma analogia sistemática de supostos atos sexuais no sentido do coito, mas da carga sexual inerente às relações interpessoais onde o sexual freudiano se deixa considerar, ilustrando a psicossexualidade humana. Além disso, quando Freud evoca o emprego dos símbolos como atravessando a língua para além dos esquemas associativos individuais, somos convidados a pensar, por exemplo, a questão das identidades sexuais como símbolos, pois ninguém contestaria hoje que ‘homem’ ou
‘mulher’ são símbolos, tamanha é a sua função de balizamento que opera para além da apreciação pessoal que se tem deles ou da tradução que lhes é atribuída. Assim, quando a identidade sexual se enuncia, não comete ela uma espécie de tautologia de conteúdo, uma repetição ou um redobramento de sua capacidade de ação ou de equivalente de ação de caráter sexual? Por que distinguir e destacar especificamente na linguagem a identidade sexual com símbolos, já que as palavras trazem em si os traços do ato sexual ou da coisa sexual, se não for para se distinguir dela por sua vez, assim como as palavras o permitem? A redundância e a sobreposição das palavras do sexo podem, por essa via, ser pensadas como operações de regulação, de delimitação do sexo em ato e do sexo como coisa, arranjos das posições sexuais de uns e de outros, buscando dizer e desdizer o que das palavras lhes cabe do sexo, desde as origens, e do qual eles e elas têm que tentar dispor em uma tentativa de liberdade subjetiva.
Dizer uma identidade sexual é dizer um ato sexual, uma coisa do sexo, e o lugar que se ocupa nesse assunto, seus efeitos, as reivindicações ou as reclamações que ela inspira; é organizar o sexo conforme ou quase conforme ao que se definiu na história; é também dar uma limitação, pela forma, ao sexual, onde o narcisismo se encarrega de fixar o curso para fazê-lo advir à categoria de suporte subjetivo. Falar equivale a situar-se nos assuntos do sexo sem que isso precise ser o objeto da fala manifesta. No fundo, algo aqui pode traduzir uma espécie de definição da psicanálise como tratamento, a saber, que se trata, pelo que compreendemos, de dar graças a essa verdade da língua e, portanto, da fala individual: verdade dos sentidos opostos e verdade do sexual em ato e em coisa. Não se encontra aí o que a cura psicanalítica reserva como destino à língua de cada um, o de retornar aos seus próprios equívocos e conteúdos sexuais para neles detectar essa espécie de destino que preside ao desejo de cada um, para reabrir uma via de construção subjetiva? Nisso, a visão de Freud responde indiretamente à preocupação ética e política que Meschonnic coloca sobre a linguagem e seus poderes. Podemos pensar aqui que uma espécie de política do sexo feita de nomeação, regulação e delimitações é, de fato, identificada por Freud quando ele se debruça sobre o ‘aparelho de linguagem’, no cruzamento do sintoma, do símbolo, do sonho e do lapso. Freud, sem falar de identidades, expressa algo que talvez possamos relacionar a elas, se admitirmos que as identidades se comportam um pouco como símbolos. E quando as identidades parecem querer tratar as questões do que designamos por identidades sexuais, adivinhamos como o esforço de circunscrição que elas encerram compromete tanto quanto garante a necessidade do dizer e da nomeação do sujeito.
Reencontramos o interesse de Freud pela representação simbólica em Moisés e o monoteísmo: “Há, primeiramente, a universalidade da simbólica […]. Trata-se de um saber originário que o adulto depois esqueceu. É verdade que ele utiliza os mesmos símbolos nos sonhos, mas não os compreende se o analista não os interpreta para ele, e mesmo assim ele não dá crédito de bom grado a essa tradução. […] A simbólica situa-se também além das diversidades das línguas; investigações provavelmente mostrariam que ela é ubíqua, a mesma em todos os povos. Parece, portanto, que estamos aqui diante de um caso seguro de herança arcaica vinda do tempo em que a língua se desenvolvia, mas poder-se-ia tentar ainda outra explicação. Poder-se-ia dizer que se trata de relações de pensamento entre representações que se estabeleceram durante o desenvolvimento histórico da linguagem e que devem agora ser necessariamente repetidas cada vez que se efetua individualmente um desenvolvimento da linguagem. Seria então um caso de transmissão hereditária de uma disposição de pensamento, como se encontra, por outro lado, de uma disposição pulsional, e que ainda não seria uma contribuição nova ao nosso problema.” (Freud S., 1939). O acesso ao desenvolvimento individual da linguagem realiza-se, portanto, em uma transmissão que margeia o originário e a repetição desse vínculo da representação de origem com a representação atual. Pensado nesse movimento, o dizer da identidade sexual — tal como figura na modernidade em profusão, em inovação — parece aproximar-se do desenvolvimento da língua individual, impregnada das heranças antigas que datam do desenvolvimento da língua comum e que, como símbolos, pedem para ser interrogados para conhecer o que a representação simbólica de um objeto por outro conhece talvez de transformação com as evoluções da língua, tais como ocorrem, sem dúvida, permanentemente, e para cada um, como sublinha Freud. O renovo atual das figuras das identidades sexuais não decorreria disso? De uma transformação dos símbolos da língua que exige, a partir de alguns ajustes dos usos individuais desses mesmos símbolos, renovações mais globais? Uma interrogação pela fala, que é uma prática da linguagem, de uma política? Declínio, transformação, evolução, progresso? Cada novidade das línguas individuais projetando-nos no limiar das evoluções coletivas pela via da representação simbólica mutável na retomada singular que dela se apossa. Podemos formular que isso delimita o perímetro de uma expressão identitária atravessada pelos fundamentos da linguagem e pelos caracteres de sua transmissão. A concepção freudiana da linguagem, na falta de ser uma teoria da linguagem propriamente dita, não deixa de ser uma concepção da qual podemos extrair uma política quando ela pode se traduzir em práticas que nomeiam, descrevem, regulam e delimitam os usos, os objetos, os produtos. Sem perder de vista que a linguagem compromete o corpo ao receber dele a inscrição e a extensão, conforme formulamos anteriormente.
A RESPEITO DO CORPO EM FREUD
Observemos, primeiramente, que as ocorrências do corpo na obra freudiana estão, em grande parte, ligadas às da linguagem. O corpo é pensado a partir dos sofrimentos da histeria, por exemplo, cujo corpo fala para Freud, já que é assim que ele segue o rastro do sintoma até o saber inconsciente. Superfície de aparecimento de fenômenos ou de realização de outros fenômenos, o corpo freudiano é erótico; o corpo é uma zona erógena plural onde a prática sexual vê sua existência articulada à eleição ou ao abandono de certas zonas do corpo em função do que podemos considerar serem representações: “As zonas que, no homem normal e maduro, não produzem mais desligamento [Freud entende por isso: ‘uma espécie de secreção que é exatamente sentida como o estado interno da libido’] sexual são então forçosamente a região anal e a área buco-faríngea. Isso se compreende de duas formas: primeiro, a visão e a representação que se tem delas não têm mais efeito excitante; segundo, as sensações internas que delas emanam não fornecem contribuição à libido, como aquelas vindas dos órgãos sexuais propriamente ditos. Nos animais, essas zonas sexuais continuam em vigor sob esses dois aspectos; quando isso persiste no ser humano, aparece… a perversão.” (Freud S., 1897). Esse desligamento, que trabalha para o esforço de civilização, se notarmos a referência animal, age como uma espécie de “recalcamento normal”, deixando aparecer alguns sintomas como o “nojo”, vestígio da operação de desligamento que, por sua vez, “cai no esquecimento”. Ele prossegue: “Deve-se supor que na idade infantil o desligamento sexual ainda não é tão localizado quanto será mais tarde, de modo que aqui também essas zonas abandonadas mais tarde (talvez toda a superfície do corpo também) suscitam de certa maneira algo que é análogo ao desligamento sexual posterior. O desaparecimento dessas zonas sexuais iniciais teria seu correspondente na reabsorção de certos órgãos internos ao longo do desenvolvimento.” Freud sugere aqui que o estabelecimento do desenvolvimento torna possível não apenas o abandono de certas zonas sexuais em favor de outras zonas com uma reorganização da libido indexada a certas representações mais favoráveis, mas que essa reorganização pode sustentar até a reabsorção de certos órgãos ao longo do desenvolvimento. Como compreender isso? Freud evoca o que, ao longo do desenvolvimento humano, gerou transformações progressivas fazendo com que certas zonas e suas funções — até o órgão — fossem “reabsorvidos”; é o “recalcamento orgânico”. Freud apoia-se, nomeadamente, na passagem para a marcha ereta que, afastando o nariz de certas sensações “interessantes”, tornaram-se “repugnantes”. Essa noção do recalcamento orgânico permite-nos pensar, já que a questão das representações não está desvinculada dela, que a linguagem que acompanha essas evoluções também registrou as transformações do corpo em seu seio, edificando passo a passo uma dimensão comum do corporal que interpretamos como as primícias de uma política do corpo enquanto produto cultural.
Vemos, portanto, reaparecer a questão das representações, dos traços mnêmicos que envolvem aqui a marcação e a impressão feitas no corpo pelos elementos da linguagem, do corpo percebido como lugar de inscrição das estimulações passadas. A articulação fisiológica e psíquica do corpo e da linguagem encontra aqui um desenvolvimento maior na elaboração psicanalítica. Como Freud estabelece o vínculo entre essas duas dimensões das quais afirma a proximidade econômica e dinâmica, e das quais dirá em seguida o renovo que elas envolvem na segunda tópica? Ele deduz a pulsão, esse
“conceito limite entre o psíquico e o somático, o representante psíquico das excitações, dos estímulos oriundos do interior do corpo e que chegam ao psiquismo, como uma medida da exigência de trabalho que é imposta ao psíquico em consequência de sua ligação ao corporal.” (Freud S., 1915). O corpo não é, portanto, definitivamente redutível à anatomia, e Freud reafirma aqui seu apego ao biológico, que constitui para ele verdadeiramente um modelo de inspiração do vivo. Prossigamos em sua concepção da pulsão, que Freud distingue da excitação fisiológica: “A excitação pulsional não vem do mundo exterior [ao contrário do modelo da excitação fisiológica], mas do interior do próprio organismo. É por isso que ela age também de maneira diferente sobre o psíquico e exige, para ser eliminada, outras ações. […]
A pulsão, ao contrário, nunca age como uma força de impacto momentânea, mas sempre como uma força constante. E como ela não ataca pelo exterior, mas pelo interior do corpo, não há fuga que possa servir contra ela. Existe um termo melhor que o de excitação pulsional: o de ‘necessidade’; o que suprime essa necessidade é a
‘satisfação’. Ela só pode ser obtida por uma modificação conforme ao fim visado (adequada) da fonte interna de excitação.”. O corpo, submetido ao regime pulsional, é um corpo que se transforma, sente, que se carrega e se acalma das tensões que o atravessam. A pulsão, de fonte intrassomática, é distinguida do estímulo comum que vem do exterior. Se a pulsão é a representação psíquica desse estímulo interno e se sabemos também que representações ou traços mnêmicos são mobilizados na obtenção de descargas sexuais, temos algumas dificuldades em concluir com Freud sobre a relação entre pulsão e linguagem. Talvez não haja uma que possa ser escrita inteiramente? No entanto, sabemos que a perspectiva em representação das palavras, das coisas e da pulsão — três representações no psiquismo — permite elaborar os processos de defesa das neuropsicoses, nomeadamente. Quando a representação se encontra, pela defesa, desligada do afeto, então a carga prévia desloca-se para outro lugar — para o corpo na conversão histérica, por exemplo (Freud S., 1894) — a partir de uma reorganização interna na qual podemos ler uma forma de regulação da pulsão para outro objeto, outra representação, mas no alinhamento de seu fim.
A pulsão tem mais afinidade com a representação de coisa ou com a representação de palavra? Somos tentados a dizer que ela está mais próxima da representação de coisa devido à sua ligação com a representação de palavra por sua “extremidade sensível” (Freud S., 1891); por seu intermédio, a pulsão pode vir a imiscuir-se, abrir um caminho até o lugar da linguagem, portanto, até a representação de palavra, para ali criar uma perturbação, dificuldades de pronúncia, um lapso. Essa proximidade entre pulsão e representações de coisas — ligada ao sistema inconsciente — também pode ser sustentada pela visão da segunda tópica (1920) de Freud, onde o “Isso” é a reserva das pulsões. A linguagem é então uma espécie de superfície ou de campo onde aquilo que do corpo a pulsão pode dar conta pode vir a depositar-se e a inscrever-se. Mas se lermos esta proposição de Freud: “No surgimento do eu e na sua separação do isso, outro fator além da influência do sistema Pc parece ainda desempenhar um papel. O corpo próprio, e acima de tudo a superfície, um lugar de onde podem provir simultaneamente percepções internas e externas. Ele é visto como um outro objeto, mas produz ao toque dois tipos de sensações, das quais uma pode equivaler a uma sensação interna.” (Freud S., 1923), não se pode ver aí a superfície do corpo como lugar da linguagem enquanto o próprio lugar de expressão do “aparelho de linguagem”, podendo este designar o “aparelho psíquico”? E essa perspectiva não é reforçada, nesse mesmo texto, quando Freud propõe para dizer o que é o eu: “O eu é, antes de tudo, um eu corporal, não é apenas um ser de superfície, mas ele próprio a projeção de uma superfície [Freud acrescenta em 1927 uma nota à tradução inglesa: ‘O eu é, finalmente, derivado de sensações corporais, principalmente daquelas que têm sua fonte na superfície do corpo. Ele pode, assim, ser considerado como uma projeção mental da superfície do corpo e, além disso, como vimos acima, representa a superfície do aparelho mental.’]”.
PARA CONCLUIR
O que aprendemos com Freud sobre o corpo, a linguagem e sua relação? Sabemos com ele que o corpo não está livre da pulsionabilidade, daquilo que em seu cerne o expõe ao regime pulsional e à necessidade de sua satisfação. O próprio eu, superfície corporal projetada, está submetido a esse regime pulsional. O corpo é investido, representado, reformulado, recalcado ou eleito conforme se conforme às expectativas do desenvolvimento ou das questões sociais. Sabemos também que a linguagem é uma superfície projetada onde o corpo encontra lugar para se inscrever e onde se expõe o pulsional nas representações de palavras. Falar diz tanto quanto faz, a menos que dizer não seja uma ação em si, o que a experiência psicanalítica desmente radicalmente. E o que se diz não diz nada além do sexo — experiência originária — em sua dimensão corporal; tal é o corpo que a abordagem da linguagem pela psicanálise permite pensar. Em outras palavras, uma via de acesso ao pulsional abre-se pelo fato da linguagem que, em contrapartida, testemunha as reorganizações que sua integração para cada indivíduo ocasiona de ligações ou de desligamentos sexuais possíveis, rumo a novas recomposições do corpo e do pulsional que se veem atingidos. É a via terapêutica vislumbrada por Freud onde podemos interpretar a fala como eminentemente política em relação ao corpo e ao que o designa a partir do inconsciente, a partir da língua comum. Se o corpo não é nada sem a linguagem que o representa e o transforma, não há linguagem que não seja do corpo; o fato de o sujeito poder chegar até o autismo prova-o.
O que podemos deduzir e desenvolver disso? Ao reconhecer o aparelho psíquico, Freud reconhece o lugar da liberdade no cerne da coação. Quando um indivíduo fala, podemos dizer que um corpo fala; ele fala apenas do que o corpo vive sob o regime pulsional, determinado inconscientemente, que não deixa de passar pela consciência, em uma distribuição de funções psíquicas e de lugares psíquicos e de objetos psíquicos que integram os resultados da cultura, esforço da evolução individual, ela própria integrada no esforço coletivo. As novas figuras sexuais ou os novos sintomas que aparecem e nos interrogam repetem-nos um pedaço da história da nossa língua, da sua atualização sempre em curso, contam-nos o presente dos corpos que integram e testemunham mostrar a evolução da língua coletiva que traduz a nossa perpétua adaptação às coisas e às ações sexuais. Desde Freud, sabemos que, se as coisas e as ações sexuais exercem seu efeito sobre a língua, a língua, por sua vez, influi sobre as coisas e as ações sexuais; o corpo ocupando lugar como produto e contingente desse arranjo. Sem circularidade possível, essa circulação obriga, no entanto, a pensar uma reciprocidade imperfeita que formulamos assim: o corpo faz a língua, a fala faz o corpo. No vão dessa assimetria que Freud nos convida a experimentar e a pensar, funda-se o fechamento impossível onde a análise aparece e onde o analista se apoia, lá onde ele toma a medida, ao colocá-la como tal, da responsabilidade política do seu ato em relação às coisas do sexo. Isso caracteriza, do nosso ponto de vista, uma política do corpo ou o que nos autorizamos a pensar nesses termos para a psicanálise.
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