O “gênero gay” e o sofrimento identitário: o fenômeno slam (2014)

O “gênero gay” e o sofrimento identitário: o fenômeno slam (2014)

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Gênero gay e sofrimento identitário: o fenômeno slam

Nouvelle Revue de Psychosociologie, 2014/1, n° 17, p. 109-120.

Chemsex. Um novo fenômeno surgiu, há cerca de seis anos, sob o nome de “slam”. Este termo anglófono, conhecido por nomear uma arte de batalhas verbais, designa hoje uma prática de injeção de drogas por via intravenosa em um contexto sexual. Trata-se do consumo de produtos psicoativos da família das catinonas 1. Os efeitos ecstasy like 2 dessas moléculas disponíveis na internet são apreciados por sua aptidão em ampliar o prazer físico e mental. Esta prática de consumo de drogas apareceu no seio da comunidade gay (desde 2004-2005 aproximadamente). A partir do espaço festivo do clubbing nomeadamente e de seus consumos de drogas recreativas, o uso de certas moléculas tornou-se, pouco a pouco, uma especificidade da vida sexual de uma parte da comunidade gay. Os efeitos desses produtos são apreciados por várias razões: por aspectos relacionais, já que facilitam os encontros e desinibem os consumidores; por aspectos técnicos, porque facilitam certas práticas hard, extremas ou mais intensas do que as habitualmente praticadas pelos consumidores; e

pelo prazer e pelo gozo que podem ser potencializados. O sofrimento ligado à identidade (ou as dificuldades geradas pela inibição sexual e social) — necessidades de reconhecimento, tensões relacionais — e os meios de remediá-lo estão no cerne deste fenômeno que mistura tanto a identidade sexual quanto a identidade de gênero, segundo variações que propomos estudar. Uma abordagem de gênero aplicada à identidade gay 3 nos permite trazer à tona alguns desafios subjacentes às necessidades e contingências sociais, psíquicas e sexuais. Vejamos o que a experiência clínica permite constatar e quais manobras o gênero permite realizar para compreendê-los, mas também para intervir clinicamente, a partir do lugar do psicanalista, no plano psíquico e levando em conta os aspectos sociais e culturais.

CONSTATAÇÕES CLÍNICAS

 

O slam faz cruzar de maneira flagrante as dimensões intrapsíquicas, relacionais, mas também sociais, sexuais e culturais. De fato, é em locais de socialização que emerge o slam — clubes, festas. Ele não aparece primeiramente no quarto, embora sua prática acarrete, em seguida, uma mudança de cena do espaço público recreativo para o espaço privado de um apartamento. Jérémie, 32 anos, explica: “No início, eu consumia GHB 4 em clubes, um pouco como todo mundo, e depois, quando vi que isso me ajudava sexualmente a ter mais prazer, comecei a consumir também durante encontros, em casa. Foi aí que um dia me ofereceram meph’ 5, eu experimentei e, desde então, só consumo isso.”

A prática do slam provoca danos psíquicos e físicos desde o início do consumo. A prática da injeção por via intravenosa exige conhecimentos e hábitos técnicos que os adeptos do slam não possuem no momento de sua iniciação, nem que o meio gay possua tanto em comparação a outras comunidades — free-party, squats — onde as recomendações para práticas de injeção de menor risco se difundiram já há muitos anos 6. Há, portanto, imediatamente riscos infecciosos, de conta-

minação pelo HIV ou hepatites (C, em particular), mas também danos somáticos no sistema venoso 7, efeitos secundários da injeção no sistema respiratório ou cardíaco 8. Tão rapidamente, ou quase, quanto os riscos somáticos, efeitos psíquicos aparecem no momento da “descida”, que se revela frequentemente dolorosa em consumidores pouco experientes e, às vezes, até em habituados. Os pacientes descrevem momentos de “paranoia”, de

“depressão” sucedendo, na vertente negativa, aos efeitos positivos previamente sentidos, tais como um “gozo e uma comunhão inauditos com o parceiro”, uma “superação dos limites”.

A descoberta em tempo real, que os pacientes realizam nessas experiências ainda pouco conhecidas pelos especialistas, exige do clínico um trabalho de levantamento, de informação sobre as práticas, os efeitos, os problemas encontrados que devem ser problematizados e compartilhados entre todos os parceiros possíveis: adictologistas, psiquiatras, consumidores especialistas, sociólogos, etc.

A longo prazo, a prática do slam acarreta, infelizmente, quase tantos danos quanto o consumo de crack — ao qual é frequentemente comparado para evocar suas consequências a curto, médio e longo prazos. Os danos físicos e psíquicos imediatos agravam-se com o tempo: os transtornos de humor impõem-se fora dos momentos de consumo com suas consequências relacionais, sociais e profissionais; a perda de peso pode ser muito significativa e rápida (vários quilos, até dez em poucos meses); infecções e contaminações podem se multiplicar. Quando os pacientes vêm pedir ajuda, estão quase sempre em uma situação de urgência para encontrar um lugar para falar e iniciar a avaliação de sua situação, ou mesmo uma hospitalização rápida para remediar o cansaço psíquico frequentemente agudo. Jean, 45 anos, pede: “Precisa me ajudar, agora não aguento mais, consumo em casa à noite sozinho, sendo que antes era só para transar. Faltei ao trabalho várias vezes e vou acabar perdendo meu emprego. Não estou mais tomando meus tratamentos. Tive três sífilis este ano, e também a hepatite C que eu não tinha antes… eu só tinha o HIV. Briguei com todo mundo. Assim que um cara me manda um SMS para dizer que tem meph’, não consigo evitar de ir. Na internet, só me oferecem encontros chem’ 9.”

A AIDS CONTINUA A DIVIDIR

 

Os profissionais envolvidos (psicólogos, adictologistas, infectologistas, psiquiatras) são poucos os que se especializaram neste fenômeno. Este constitui uma clínica marginal, que assusta também uma parte dos profissionais de saúde, na medida em que tal especialização pode parecer induzir uma espécie de exclusão, eco daquela que o consumo desses produtos específicos acarreta entre os gays. De fato, em uma comunidade com fortes reivindicações identitárias, a própria constituição do “fenômeno slam ” deve ser observada como o sintoma de outra exclusão subjacente, a dos gays soropositivos entre os gays. De fato, a maioria dos gays que praticam o slam são soropositivos para o HIV e, embora não existam dados científicos sobre este ponto, o conjunto dos atores reconhece esta característica principal do slam. O slam nos conta algo sobre a epidemia de AIDS entre os gays; esta é, em todo caso, a hipótese que formulamos desde o nosso primeiro encontro com esses pacientes há cerca de cinco anos.

Primeiramente, com quase 20% de soropositivos, não se pode dizer que a comunidade gay em Paris esteja descobrindo o HIV, nem os soropositivos, em 2014 — a prevalência atinge 12% entre os gays ou HSH (homens que fazem sexo com homens) em nível nacional 10. Portanto, nunca houve tantos gays portadores do vírus como hoje. E como os casos de contaminação se mantêm a cada ano, esse número continuará a crescer graças aos tratamentos que permitem aumentar a expectativa de vida e garantem a cronicidade da infecção viral. Curiosamente, ao mesmo tempo, os soropositivos gays parecem nunca ter sentido tanta dificuldade em viver sua soropositividade em sua própria comunidade, nos encontros afetivos ou sexuais ou ainda no trabalho. Os progressos medicamentosos não erradicaram os medos que perduram, inclusive quando esses progressos permitem racionalizá-los. É disso que os pacientes se queixam quando consultam, e o que a mídia comunitária testemunha cada vez mais frequentemente: fala-se de uma “sorofobia acentuada 11”, o que é paradoxal de um certo ponto de vista. Os efeitos imaginários da AIDS traduzidos pelo medo persis-

tente da contaminação mantêm-se apesar da existência de meios de prevenção, como o preservativo, e apesar da diminuição real dos riscos de contaminação — as pessoas tratadas podem tornar-se mais ou menos não contaminantes 12 mesmo em caso de relações sexuais desprotegidas, que nem sempre são riscos impensados (vida de casal, escolha individual, uso de tratamento preventivo).

No trabalho clínico com os pacientes envolvidos no slam, o pertencimento à comunidade gay é abordado muito rapidamente; é a identidade em seu sentido mais amplo de identidade sexual que aparece. Hermann, 24 anos, diz: “Sou gay, fiz de tudo para ser gay e não apenas homossexual. Homossexual é médico. Gay é gay. Mas desde que sou soropositivo, se eu digo, os caras não querem mais transar comigo, os inícios de relacionamento param assim que eu falo. No entanto, sou indetectável e, na pior das hipóteses, podemos continuar usando camisinha, eu não me importo.” A identidade gay designa mais do que a orientação sexual, expressa aqui Hermann. Além do fator genital ou de uma preferência sexual, Hermann expõe claramente o alcance social do sexo que podemos entender como expressão do gênero. Ele nos diz também que esta identidade é o resultado de um trabalho — ele “fez de tudo para” —, uma construção que pode chegar até a performance. Pensamos que se trata aqui de uma performance de gênero. Além, portanto, de sua identidade sexual — ser macho ou fêmea —, a identidade gay parece aqui dar conta desse aprendizado, desse tornar-se gay que colocamos em paralelo com o tornar-se homem ou tornar-se mulher enquanto identidade de gênero 13. Esta produção a partir e além do sexo biológico testemunha, segundo nós, o que Joan W. Scott expressa aqui sobre o gênero: “um elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, e […] uma forma primária de significar relações de poder” (Scott, 1986, p. 186). Ser gay, para Hermann e para outros, decorre da necessidade de significar relações de poder e de exclusão (heterossexualidade/homossexualidade, gays soropositivos/gays não soropositivos), de admitir seu alcance e de se identificar a partir deles nas relações sociais (profissionais, afetivas, sexuais, familiares, comunitárias).

A IDENTIDADE GAY, UMA IDENTIDADE DE GÊNERO EM VEZ DE UMA IDENTIDADE SEXUAL

 

A identidade gay merece, segundo nós, ser pensada a partir de então como uma identidade de gênero, na medida em que dá conta das dimensões sociais e culturais da vida sexual. Gay revela-se não ser apenas uma promessa identitária que acolhe uma preferência sexual, mas uma preferência sexual com consequências identitárias que ultrapassam a dimensão exclusiva do sexo. Isto nos encoraja a definir, para pensar o fenômeno slam, o que designamos a partir daí por “gênero gay”. Pois se o gênero não se contenta em ser a expressão social do sexo biológico, mas dá conta dos processos de construção e desconstrução em curso no que a vida sexual impõe ao sujeito, então precisamos dele para pensar fenômenos como o do slam e para vislumbrar, graças a ele, uma intervenção sobre esses processos.

De acordo com nossa experiência clínica, o gênero gay permite assim distinguir o que na identidade gay não se contenta em dar uma representação visível às identificações do sujeito, mas dá também figura aos elementos menos visíveis, inconscientes e, no entanto, determinantes da vida psíquica. “Desfazer o gay”, como outros “desfizeram o gênero”, pode ser uma maneira de traduzir a opção clínica que propomos diante deste fenômeno. É, aliás, o que pedem implicitamente aqueles que vêm consultar, como Pierre: “Não entendo, tenho um trabalho excelente, saio no meio, estou à vontade com minha homossexualidade, não tenho dificuldades nas práticas sexuais, transo com quem eu quero quando eu quero, vim morar em Paris para isso, tenho tudo o que queria ter, tudo o que precisava para ser gay. E agora, nada mais vai bem, sou soropositivo, o que é quase ‘normal’ para um gay, e injeto drogas, ninguém mais quer fazer sexo comigo normalmente e nem eu, aliás, estou exausto, fiz tudo isso para quê?” Como não seguir e prolongar esta interrogação, invertendo seu conteúdo para abrir o questionamento desta construção da própria identidade gay à luz do gênero?

ADVENTO IDENTITÁRIO E PERIGO COMUNITÁRIO

 

Somos tentados a interrogar o “gay” com Pat Califia, que dizia já em 1983: “[…] dentro do movimento [gay], as pessoas insistem em uma forma de pureza que não tem muito a ver com ternura, desejo sexual ou mesmo engajamento político. Ser gay torna-se um estado de graça sexual, comparável à virgindade. O proselitismo fanático em favor de um comportamento gay […] cem por cento me faz frequentemente pensar em um medo supersticioso de contaminação ou poluição” (Califia, 1983, p. 71-82). No momento em que Califia profere esta conferência, a epidemia de AIDS está apenas começando, ela ainda não marcou a comunidade homossexual que acaba de começar a

florescer abertamente sob sua bandeira “gAy” (acrônimo de Good as you), que se tornou seu carro-chefe identitário. Reler estas frases hoje, na época do slam e dos elementos que acabamos de percorrer, é perturbador. Parece que algo obscuro se manteve nos fundamentos da performance em que a identidade gay se apoiou para se erguer, favorecida pela AIDS, que não lhe permaneceu estranha, pois parece ter se introduzido onde um lugar a esperava.

A “pureza” de que fala Califia faz pensar no essencialismo, ou seja, em uma “natureza” do homem ou da mulher, por exemplo. Ela também nos faz pensar no imperativo identitário que pesa sobre as mulheres e que as feministas podem às vezes impor, como Joan W. Scott lamenta (Scott, 2011, p. 45-67). De fato, as figuras aclamadas por um movimento de reconhecimento e afirmação identitária — as mulheres ou os gays, por exemplo — ocultam por vezes construções imaginárias e inconscientes que pesam fortemente sobre a liberdade dos indivíduos que buscam se identificar, tentados a se engajar nelas para garantir seu florescimento ou sua sobrevivência, às vezes correndo o risco de comprometê-los finalmente. As identidades “mulher” e “gay” estão integradas aos discursos e circulam de tal forma que não são mais discutidas. Estas identidades devem, portanto, como Scott nos indica sobre a identidade

“mulher” e que pode ser aplicado à identidade “gay”, ser objeto de uma desconstrução minuciosa, histórica e fantasmática para liberar os desafios inconscientes e por vezes deletérios que estas figuras esperadas como emancipadoras escondem em seu cerne. Esta desconstrução pode ser realizada seguindo o modelo da desconstrução do gênero.

São, de fato, esses desafios — de identificação inconsciente — que, por serem ignorados, fazem pesar, por exemplo sobre os gays — confirmados ou em formação —, a necessidade de provar de todas as formas possíveis que a vanguarda das sexualidades lhes pertence, a qualquer preço. Esta é a nossa hipótese de trabalho. Que isso seja provado pela AIDS, pelas drogas ou por outros sinais, convida-nos a acolhê-los como sintomas, não para fabricar patologias identitárias, mas para colocar novamente em movimento os processos psíquicos e sociais envolvidos. Ao dissecar no trabalho clínico as articulações dos desafios individuais e coletivos, como o gênero nos permite fazer, podemos reabrir as portas fechadas dos discursos identitários para renovar seu poder subversivo e libertador, portanto terapêutico para o sujeito. Assim, são necessariamente as dimensões da comunidade, da identidade, do social, do indivíduo e do coletivo que são todas colocadas em trabalho simultaneamente, graças ao cruzamento de uma abordagem resolutamente clínica e psicossociológica.

Vimos o que a história nos permite pensar com Joan W. Scott; vejamos como a filosofia e a antropologia podem nos ajudar. Em 1975, Claude Lévi-Strauss concluiu o seminário sobre a identidade com estas palavras: “[…] a identidade é uma espécie de foco virtual ao qual

nos é indispensável referir para explicar um certo número de coisas, mas sem que ela jamais tenha existência real. […] um limite ao qual não corresponde, na realidade, nenhuma experiência” (Lévi-Strauss, 2000,

  1. 332). Compreendemos com ele que a representação social oferecida pela identidade exige e sustenta o investimento psíquico e físico daquele ou daquela que se reconhece na figura que ela lhe propõe. Por extensão, podemos dizer que a identidade gay propõe aos sujeitos envolvidos, como qualquer identidade, sentido para a existência real, para a vida concreta. E é aí que o risco de estase que a identidade impõe pode ser trabalhado com a ferramenta gênero enquanto “categoria útil de análise crítica” (Scott, 1986), para que a apreensão imaginária necessária ao sujeito não seja fixada, mas mantida em uma perspectiva criadora.

Em outra ordem de ideias, Jean-Luc Nancy também se aproxima de alguns elementos expostos nas falas de Pat Califia sobre a identidade e a comunidade. Em A comunidade desoperada, Nancy escreve:

“Bataille soube melhor do que ninguém [ele foi o único a abrir o caminho para tal saber] o que forma mais do que uma conexão entre o êxtase e a comunidade, o que faz de cada um o lugar do outro, ou ainda aquilo por que, segundo uma topologia atópica, a circunscrição de uma comunidade, ou melhor, sua arealidade (sua natureza de área, de espaço formado), não é um território, mas forma a arealidade de um êxtase, assim como, reciprocamente, a forma de um êxtase é a de uma comunidade” (Nancy, 1986,

  1. 53). O “estado de graça sexual” de que fala Califia não seria o projeto de um absoluto da comunidade gay, que podemos ler com o que Bataille designa por “êxtase”? Mas esses autores também avançam que o “êxtase” e a “comunidade” se limitam mutuamente, gerando o êxtase da comunidade e permitindo o surgimento do “ser-em-comum” que Nancy designa como obra de morte e de fusão. As palavras de Califia parecem seguir esses passos. A redução do denominador comum identitário — passando de gay para gay soropositivo, depois para gay soropositivo adepto do slam — ecoa essa obra comum que pode fazer arriscar a morte enquanto obra comunitária, onde o indivíduo desaparece em favor da referida comunidade — ou de seus restos.

NO CRUZAMENTO DO IDENTITÁRIO E DO INCONSCIENTE

 

Na falta de recorrer ao gênero para interrogar a identidade na qual podem se reconhecer, gays soropositivos apoderam-se hoje do slam como nova prática sexual e interrogam, ao mesmo tempo, sua identidade. Ter se tornado soropositivo inscreve-se na história subjetiva. E mesmo que o discurso médico e até o discurso de prevenção possam ambos se apoiar no sucesso técnico, nos progressos dos tratamentos, a história fisiológica do vírus, por vezes muito tranquila, não garante sistematicamente uma paz subjetiva. Ser rejeitado por um amante, um amigo ou um colega é uma consequência do vírus,

embora sem qualquer justificativa orgânica. Os impactos psíquicos da soropositividade são hoje minorados pelo discurso ambiente, identitário e científico. A consideração das necessidades dos soropositivos não ultrapassa mais, muito frequentemente, a estrita renovação das receitas semestrais. O trauma da soropositividade é amplamente negado hoje, como se a sobrevivência biológica devesse apagar todas as consequências psíquicas, afetivas, sociais ou culturais que o fato de ser contaminado induz, no entanto, ainda hoje. Algumas consequências não são mais as mesmas do início da epidemia, mas a cronicidade acarretou outras: se o medo da morte iminente se dissipou em parte, os efeitos a longo prazo dos tratamentos impedem certos compromissos (em projetos, em uma vida familiar). A representação social da epidemia de AIDS em um país como a França é atualmente a de uma doença a ser recalcada, ignorada. A experiência clínica nos ensina isso de maneira convincente. Numerosos são os pacientes que, após anos de soropositividade, não encontram mais — ou às vezes nunca encontraram — alguém com quem compartilhar sua experiência, nem seus amigos, nem seu médico, nem seu parceiro.

Nestas condições, os gays soropositivos encontram-se em uma situação sem precedentes. Eles são cada vez mais numerosos e devem, ao mesmo tempo, ser indetectáveis no campo social, relacional e afetivo, assim como sua carga viral deve manter-se invisível para as técnicas de detecção de vírions no sangue. No plano inconsciente, esses elementos alimentam grandes tensões e conflitos psíquicos, tornando difícil a estabilidade identitária necessária a cada um. A identidade, mesmo que de gênero, não oferece mais o suporte que deveria dar. A oscilação de fundo que isso mantém implica, mais cedo ou mais tarde, o emprego de alguns remédios eficazes para dissolver esses nós patogênicos. Na falta de uma palavra terapêutica ou analítica, o recurso a uma prática como a injeção de drogas por via intravenosa no âmbito das práticas sexuais — que constitui, portanto, em si uma prática sexual — visa muito diretamente a identidade sexual e sua construção, sua manutenção ou sua reparação: este recurso torna-se um meio concreto eficaz de remediar dificuldades e reparar a identidade falha. Os efeitos psicoativos positivos do produto reforçam esta promessa pela reativação do desejo, a melhoria da percepção de si e da confiança ligada a esta imagem, o aumento do gozo físico daqueles que podem viver, por outro lado, experiências negativas de rejeição.

PERSPECTIVAS CLÍNICAS

Não seria mais simples desconstruir a identidade gay — com o gênero gay no modelo da teoria de gênero — em vez de recorrer a práticas potencialmente perigosas? O fenômeno slam sublinha, do nosso ponto de vista, este imperativo da interrogação e da

desconstrução identitária que pode libertar de restrições mórbidas certos gays, muito frequentemente soropositivos. A urgência em sair desta situação, deste nó de motivos inconscientes, conscientes, sociais, é exatamente o que preenche o objetivo visível, mas não dito, do slam. O recurso ao slam compensa e realiza em um plano inconsciente o que “desfazer a identidade gay” a partir do gênero como ferramenta de desconstrução e ferramenta de análise crítica permite realizar em um plano consciente no trabalho terapêutico. É, aliás, o que a experiência clínica e terapêutica demonstra, quando o recurso ao gênero gay no trabalho psicanalítico abre perspectivas de transformação e de mudança dos processos psíquicos em curso nos planos consciente e inconsciente. Estes podem ser desembaraçados e oferecidos a um novo arranjo onde os determinantes sociais dialogam de forma diferente com os determinantes psíquicos.

O gênero gay, ao final deste percurso, permite a renovação da identidade gay e das identificações que a constituem. O gênero na clínica propõe-se, constatamos, como objeto imaginário, o que nos permite ancorar nossa intervenção na proposta de Claude Lévi-Strauss sobre a identidade “foco virtual” para que nela se reflitam os fantasmas e as motivações por vezes deletérias que a expectativa comunitária transporta consigo, apesar de si mesma, e que pesam sobre o indivíduo. E já que é um objeto imaginário, vemo-lo então funcionar como processo simbólico. É o que nos sugeriram, por exemplo, estes dois pacientes: “Quando passo pela rua des Archives e vejo todos eles na frente do Cox 14, digo a mim mesmo que não me pareço com aquilo, não tenho o gênero daqueles caras, com suas jaquetas, seus músculos, eles são viris na aparência… de qualquer forma, não sou o gênero deles”, “Gosto que me digam que pareço gay, que dá para ver… não necessariamente efeminado ou tudo isso, mas gay, sabe! Não precisa explicar, dá para ver, são os outros que dizem, não eu.” Distinguimos bem, articulados um ao outro, o gênero como objeto imaginário e processo simbólico. Para que podem nos servir sob esta forma?

Sustentamos, com o apoio de nossa experiência, que gênero e sexo funcionam juntos; sem serem complementares, estão, no entanto, enlaçados: definimo-los como duas incógnitas de uma equação do sexual impossível de resolver, tal como é o enigma do sexual formulado por Freud. Ao manejar o gênero, o sexo é deslocado e questionado. É uma manobra importante no trabalho clínico, pois oferece acesso às identificações, às teorias infantis, às crenças e a todo tipo de supostas verdades sobre o sexo depositadas na história subjetiva e inconsciente.

Consideramos que, ao acessar o sexo pelo gênero, podemos abrir caminho até a sexuação e liberar as identificações profundas do sujeito, seu posicionamento quanto à função fálica, ao

gozo. É claro que nada disso é imediato, nem fácil e muito menos sistemático. Mas é, em síntese, a opção terapêutica e clínica que propomos. Para que serve isso? Para quais efeitos? O primeiro deles é a colocação em xeque do sexo como instância simbólica e a enumeração das consequências simbólicas desta instância soberana, que a maioria dos pacientes nunca teve a oportunidade de interrogar antes, antes de vir consultar. Com o gênero, o sexo é instantaneamente questionado, quando propomos, por exemplo: “Você me diz que é gay, mas como sabe disso? Está ligado ao seu sexo?” A estranheza da pergunta tem o mérito de confrontar o sexo com o gênero. Isso pode se expressar em retorno na seguinte resposta:

“Mas isso não tem nada a ver, o senhor não entende nada disso.” Ao que não deixamos de responder, para incitar: “Conte-me então, explique-me de que o ‘seu’ gay é feito, e para que o seu sexo é útil nisso…” Pois além das práticas sexuais, tão vivamente postas em jogo no slam — ele próprio tornado uma prática sexual de pleno direito —, o sexo torna-se, ou volta a ser, esse processo identificatório, imaginário, onde a imagem de si, capturada no olhar do outro, reaparece e revela suas fissuras, seus defeitos nos quais o esforço terapêutico pode se empenhar. Ele volta a sê-lo com a condição de ir buscá-lo, de certa maneira, de encurralá-lo onde ele se esconde, irremovível de certezas e fixado por hábitos. Organizar sua caça e acolher sua fuga alimenta a perspectiva clínica. Pois quando interrogamos “o gay”, em nosso exemplo, é ao “gênero gay” enlaçado ao sexo que nos dirigimos, e não apenas à identidade gay como suposta identidade sexual.

conclusão

Em um contexto de sofrimento identitário, vimos de que maneiras o recurso ao gênero, como ferramenta crítica e perspectiva de desconstrução, permite colocar novamente em movimento o que por vezes se fixa patologicamente. O slam convida-nos especialmente a interrogar a identidade gay, frequentemente pensada como identidade sexual, mas para a qual demonstramos o interesse de uma abordagem de gênero capaz de reabrir os impasses encontrados para transformá-los em perspectivas terapêuticas. Mais geralmente, o gênero permite abordar a identidade como um verdadeiro polo de atração narcísica a partir do qual as identificações que a fundamentam podem ser reconsideradas, reescritas ou reconstruídas no trabalho clínico psicanalítico.

BIBLIOGRAFIA

 

CALIFIA, P. [1983] 2000. “Des gays, des lesbiennes, et du sexe : tous ensemble”, Sexe et utopie, Paris, La Musardine.

LÉVI-STRAUSS, C. [1975] 2000. L’identité, Paris, Puf.

 

 

NANCY, J.-L. 1986. La communauté désœuvrée, Paris, Christian Bourgeois.

SCOTT, J.W. 1986 [1988]. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”,

Les Cahiers du grif, n° 37-38.

The Fantasy of Feminist History, Durham and London, Duke University Press.

VINCENT BOURSEUL, Gênero Gay e sofrimento identitário:

O fenômeno slam

RESUMO

O slam — consumo de drogas por via intravenosa em um contexto sexual — surgiu na comunidade gay. Os desafios identitários manifestos associados a esta nova prática sexual e de uso de drogas convidam a pensar a experiência clínica por meio de uma abordagem de gênero. O artigo propõe observar e interrogar o sofrimento identitário e seus determinantes sociais, inconscientes, políticos e históricos graças ao que o autor define como “gênero gay”. No limite das necessidades individuais da construção da identidade, vêm opor-se os desafios coletivos da comunidade, fazendo por vezes o indivíduo pagar o pesado tributo de uma conquista identitária. A determinação inconsciente do sujeito cruza na identidade os desafios sociais e culturais do indivíduo, que devem ser examinados em suas divergências e sobreposições para iluminar a compreensão de um fenômeno tão espetacular quanto o slam e extrair algumas perspectivas clínicas e terapêuticas.

PALAVRAS-CHAVE

Gay, gênero, slam, identidade, comunidade.

 

VINCENT BOURSEUL, Gay Gender and identity suffering: the slam

 

ABSTRACT

The slam – consumption of drugs by intravenous way in a sexual context – appeared in the gay community. The obvious identical stakes associated to this new sexual practice and of use of drugs, invite us to think of the clinical experiment by an approach of gender. We can then progress in our investigation of the identity suffering and its social, unconscious, political and historic determiners with what we can define as « gay gender ». On the verge of the individual necessities of the construction of the identity come to oppose the collective stakes in the community, sometimes making wear to the individual heavy tribe of an identity conquest. The unconscious determination of the subject crosses in the identity the social and cultural stakes in the individual, which it is necessary to examine in their differences and their overlappings to enlighten the understanding of a phenomenon so spectacular as the slam, and to release some clinical and therapeutic perspectives.

KEYWORDS

Gay, gender, slam, identity, community.